quarta-feira, 29 de abril de 2026

Para o livro de memórias da UFF - a pedido de Margarida Pacheco

 

“EU NUNCA GUARDEI REBANHOS”

CRETTON, Alessandra B.

                                                                                                                            

            Meu nome é Alessandra Barros Cretton. Trago no nome a marca do magistério: ABC, profissão que exerci com muito zelo e dedicação por quase 35 anos! Aposentei-me em 2021 na matrícula docente e em 2023 na matrícula da Secretaria Municipal de Educação de Santo Antônio de Pádua/RJ, local em que trabalhei por 33 anos, 8 meses e 8 dias.

            Há 10 anos a vida me conduziu para a cidade de Miracema/RJ, onde resido, atualmente. Miracema é uma modesta cidade do interior, mas que faz jus ao título de princesinha do Noroeste Fluminense.

               Minha formação inicial é o Curso Pedagógico, como se chamava à época o Curso Normal nível médio. Quando entrei na Licenciatura em Matemática, em 1989, na UFF - Interiorização em Santo Antônio de Pádua/RJ, eu tinha 18 anos e já era efetiva na matrícula municipal, conquistando o vínculo estadual no ano seguinte.

            Minha jornada constituiu-se de semear e colher… e colher, plantando novos amanhãs. Concluí a Licenciatura em Matemática em 1993 e, logo após, comecei a atuar como professora de Matemática e Física no Ensino Fundamental e Médio do Colégio Estadual Almirante Barão de Teffé. Fiz pós-graduação em Docência do Ensino Superior, Psicopedagogia e Educação Infantil.

Como minha função na Secretaria de Educação era de cunho pedagógico, tive a grande oportunidade de transitar entre teoria e prática — e tenho certeza de que esse foi um diferencial na minha carreira no magistério. Conheço o chão da sala de aula, da Educação Infantil ao Normal Superior, passando por todos os segmentos e modalidades. E conheço também o chão dos bastidores e da teoria: da gestão de creche à tutoria de pós-graduação, pela UFJF — Universidade Federal de Juiz de Fora — e pela Universidade Castelo Branco.

Sou grata à vida por ter me oportunizado caminhar por veredas tão diversas e enriquecedoras. Como o poeta¹, tive um olhar nítido, andando pelas estradas, olhando para a direita e para a esquerda e, como agora, olhando para trás.      

Para os tempos atuais, aposentar-se aos 52 anos pode parecer “encerrar” um ciclo muito cedo. Mas é preciso considerar que iniciei aos 16 anos, na Creche Vovô Henrique, e contribuí à Previdência por muitos anos. É preciso abrir espaço e reconhecer que, dentro de um fruto, há novas sementes. Por isso, em 2022, iniciei minha segunda graduação: Psicologia. Estou cursando o 9º período neste semestre. Sinto-me a mesma menina, com o “pasmo essencial (…) nascida para a eterna novidade do mundo”. 

Ao ser convidada a participar da escrita de memórias da UFF, olhei para trás e sorri. A menina da estrada de chão foi a primeira Secretária do Diretório Acadêmico Malba Tahan e foi uma grata surpresa encontrar nas caixas de memórias o jornal UFOFO (nome sugerido pelo aluno Vandeli Pimenta), que comprova as primeiras diretorias. Tempos de vez e voz...

Quantas vivências boas naqueles corredores do antigo Colégio de Pádua! Não vou incorrer no equívoco de citar nomes dos professores amados e inesquecíveis, porque a memória poderia trair e ser injusta. Prefiro percorrer, em lembrança, uma lista de feitos: o amor a Carl Rogers; a alfabetização com Emília Ferreiro; as experiências em Metodologia de Ciências (era Matemática, mas a gente estudava tomate e caqui); a arte – legado dos Lavaquial; professores que nos acompanhavam em nossas escolas, observando a práxis; o quadro de giz impecável de alguns professores matemáticos; experimentos; a cantina do Sr. José Bruno e a “lenda” Benício. “Those were the days of our lives” (aqueles foram os dias de nossas vidas)2.

Eu fui da turma cujo Diploma era válido das séries iniciais do Ensino Fundamental ao Ensino Médio. Consegue dimensionar a riqueza desse currículo?

            Com a vivência diária no Magistério estadual e municipal em Santo Antônio de Pádua, pude continuar desfrutando das atividades acadêmicas da UFF e, ao mesmo tempo, ser testemunha ocular das inúmeras parcerias que foram realizadas com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura. A UFF esteve presente em Jornadas Pedagógicas – encontros realizados no início de cada ano letivo; Fóruns; Seminários; Giroletras (Feira do Livro) – um acontecimento que ocorria na Praça Central da cidade, por cerca de três dias e reunia uma gama de atividades; Feira de Ciências (muitas); PIBID (Programa Institucional de Bolsa à Iniciação à Docência), dentre outros. No livro “Por amor à Educação”, publicado pela Profª Vera Kezen há esse registro, na página 893.

            Há uma outra perspectiva a ser mencionada, que considero muito valiosa: a rede municipal e estadual de Santo Antônio de Pádua – e acredito que nos municípios vizinhos também, tem 100% dos seus professores de Matemática com graduação específica na área. Essa informação pode não parecer relevante hoje, com a democratização do ensino superior, mas refiro-me ao período a partir do final dos anos 1990.

A presença da UFF no Noroeste Fluminense permitiu que nossa região fosse pioneira na atuação de professores qualificados na área, o que refletiu, ao longo dos anos, nas inúmeras premiações na OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática para as Escolas Públicas). Destaco a primeira medalha de ouro da região, em 2010, conquistada pelo aluno Daniel Cretton Carvalho, da Escola Municipal Viva.

 Como atuei por muitos anos na formação continuada de professores na Secretaria de Educação, estive diretamente envolvida com esse trabalho. Em 2006, o projeto “Jogos e Atividades Matemáticas nas Escolas” foi selecionado entre os 20 melhores do Brasil pelo Banco de Inovação em Gestão Educacional do MEC (p. 117-118 do livro citado).      

“A minha aldeia é tão grande como outra qualquer, porque eu sou do tamanho do que vejo (…)”⁴.

Hoje, vejo que Santo Antônio de Pádua ganhou um campus universitário lindo, que já frequentei em cursos de Física e palestras. Naquele campus pisaram alguns de meus ex-alunos… A Matemática ampliou seus horizontes, incorporou novas cadeiras e conquistou até um mestrado em ensino — o PPGEn (INFES/Pádua). Alguém já disse que o tempo só respeita o que ajudou a construir.

Escrevo esta singela contribuição, deixando registrada também minha imensa gratidão à UFF e ao convite para resgatar fragmentos de vivências e memórias.

“Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse (…)”. Talvez porque, na docência, nunca conduzi caminhos prontos — apenas caminhei ao lado, semeando possibilidades e confiando que cada um encontraria seu próprio caminho.

Minha alma — ou minha psiqué, como agora aprendo a nomear — é de professora.

E professora de Matemática.

 

 

1.       CAEIRO, Alberto (Fernando Pessoa). Poesia Completa de Alberto Caeiro. Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

 

2.       QUEEN. These Are the Days of Our Lives. Compositores: Queen (Roger Taylor). In: Innuendo. Londres: Parlophone/Hollywood Records, 1991. Faixa 8.

 

3.       JORGE, Vera Lúcia Kezen Camilo. Por amor à Educação. 1ª edição maio 2018 – Santo Antônio de Pádua-RJ: Editora Nova Consciência.

 

4.       CAEIRO, Alberto (Fernando Pessoa). Poesia Completa de Alberto Caeiro. Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

 






                                                                            


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