sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O que a memória ama fica eterno

Para o Zé

Adélia Prado·Bagagem (1976)


Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe — os lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer te amo. Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito para escutar o que bate.
Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba. Esmero.
Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto: “Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor.
Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé.
Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos, a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.


Adélia Prado
1935-12-13 · Divinópolis


Adélia Prado é uma poetisa brasileira contemporânea, conhecida pela sua poesia que entrelaça o cotidiano com o sagrado, o profano com o espiritual, e o trivial com o transcendente. A sua obra, marcada por uma linguagem direta, coloquial e por vezes inesperadamente lírica, reflete uma profunda reflexão sobre a condição feminina, a fé, o corpo, a morte e a busca por sentido numa realidade muitas vezes desprovida de transcendência. Prado oferece uma visão única da vida urbana e das relações humanas, onde a poesia emerge dos gestos mais simples e dos momentos mais corriqueiros, revelando a beleza e o mistério escondidos na experiência quotidiana.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A trend do 7 de setembro


Neste 7 de setembro, 2@feira, enquanto o brasileiro descansava no feriado (os eleitos, claro!), o chatgpt trabalhou como louco na trend do "como eu seria nos anos 80". Foi uma invasão na internet de fotos. Os mais pessimistas acreditam em alguma teoria de conspiração para nos roubar dados. Como nunca tive o que esconder, lá coloquei uma foto minha com a Janaina, que já habitávamos este mundo nos anos 80, mas só viríamos a nos encontrar em 2002. O interessante é que, um dia, arrumando nossas pastas de certificados, descobrimos que estivemos (nos anos 80) em dois eventos educacionais: a primeira Semana de Educação que a UFF fez em Pádua (eu ainda fazia o curso normal, no Caribé) e, depois, um evento em Aperibé, promovido pela Secretaria de Estado de Educação, durante 3 dias. Como éramos de áreas diferentes - eu, de exatas e ela, de humanas, não nos encontramos. Não era a hora, ainda... Vou procurar os Certificados e guardar neste portal de memórias. Por ora, deixo a fotografia que o Chatgpt fez de nós duas.