quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Gentilezas

Tão bom quando somos surpreendidos por pequenas gentilezas!
Há algum tempo comentei com a Dona Marne que adoro braceletes, mas é difícil encontrar um tamanho que fique bom no meu pulso. Foi uma conversa despretensiosa enquanto ela realizava uma venda a um amigo de trabalho. 
Nem me lembrava mais desse fato e eis que na segunda-feira ela manda entregar-me - para minha apreciação e sem compromisso de compra -, um feito sob medida, especialmente para mim. E, detalhe: com a dobradiça que eu havia mencionado.
Uma coisinha miúda que deixa a gente tão feliz e nos leva a refletir se também temos agido assim para com o nosso próximo. 
Obrigada, D. Marne! Fiquei duplamente feliz: pelo seu gesto e pelo bracelete.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Entre a poesia e os afazeres

De Wania Amarante
Quarto de Costura
Aprendendo a plantar

Fofar a terra do canteiro
misturar esterco já curtido
semear no tempo certo.
Regar ao fim das tardes
dormir luas
despertar manhãs.                                   (que lindo!)
Um dia ela aparece desajeitada
sem forças pra empurrar a terra.
Um sopro a faz tremer
uma gota d´água pode afogá-la.
Agarrada às suas irmãs já tem duas folhinhas.
É hora de replantar.
Cada qual no seu lugar,
cada qual no seu canteiro.
Regar ao fim das tardes
dormir luas
despertar manhãs.
Um dia ela se abre em pétalas
cheira a festa, se diz flor.
Mamãe afasta as folhas e os galhos
me mostra botões novos:
- Minha filha, a plantinha agradece,
cresce viçosa se cuidamos dela.
Minha mãe me ensinava que tudo fica mais bonito
Se plantado com amor.

domingo, 4 de outubro de 2015

São Francisco

Vinicius de moraes

Rio de Janeiro , 1970

Lá vai São Francisco 
Pelo caminho 
De pé descalço 
Tão pobrezinho 
Dormindo à noite 
Junto ao moinho 
Bebendo a água 
Do ribeirinho. 

Lá vai São Francisco 
De pé no chão 
Levando nada 
No seu surrão 
Dizendo ao vento 
Bom dia, amigo 
Dizendo ao fogo 
Saúde, irmão. 

Lá vai São Francisco 
Pelo caminho 
Levando ao colo 
Jesuscristinho 
Fazendo festa 
No menininho 
Contando histórias 
Pros passarinhos.

sábado, 3 de outubro de 2015

É o que tivemos para hoje, 03 de outubro: Jorge Vercillo na praça


Chega de fingir
Eu não tenho nada a esconder
Agora é pra valer, haja o que houver
Não tô nem aí
Eu não tô nem aqui pro que dizem
Eu quero é ser feliz, e viver pra ti

Pode me abraçar sem medo
Pode encostar tua mão na minha
Meu amor
Deixa o tempo se arrastar sem fim
Meu amor
Não há mal nenhum gostar assim
Oh, meu bem
Acredite no final feliz
Meu amor... Meu amor

Chega de fingir
Eu não tenho nada a esconder
Agora é pra valer, haja o que houver
Não tô nem aí
Eu não tô nem aqui pro que dizem
Eu quero é ser feliz, e viver pra ti

Pode me abraçar sem medo
Pode encostar sua mão na minha
Meu amor
Deixa o tempo se arrastar sem fim
Meu amor
Não há mal nenhum gostar assim
Oh, meu bem
Acredite no final feliz
Meu amor... Meu amor

Pode me abraçar sem medo
Pode encostar sua mão na minha
Meu amor
Deixa o tempo se arrastar sem fim
Meu amor
Não há mal nenhum gostar assim
Oh, meu bem
Acredite no final feliz
Meu amor... Meu amor

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Laços e Laranjas

                                                                                                                            Julho/2015

Os corredores são sombrios, mas persisto na certeza de que vai valer a pena. Diante de mim uma porta. Posso bater e abrir. Posso desistir e recuar. Decido pela primeira opção. E abro bem devagarinho, para que não haja barulho e nem surpresa pela minha chegada. Se possível, quero ultrapassar sem ser notada. Mas como prever o que nos aguarda depois do limiar?
Abro a porta. Agora é claridade! Uma luz diáfana desenha um novo quadro diante de mim. Do lado esquerdo - talvez por ser o lado do coração – aquele homem franzino que sempre carrega consigo um chapéu, bigodes, cigarro e lindos olhos verdes transparentes. Doces olhos verdes.
Acomodado num sofá e com sorriso acolhedor, acena para que eu arraste um banquinho e me acomode à sua frente. Tira do bolso da camisa de tergal um pacotinho daquelas folhas de seda onde deposita fumo picado e, num ritual demorado, prepara um próximo cigarro. Mas, desta vez, as folhas não são para seu próprio deleite.
Em milésimos de segundo, enquanto acompanho seus movimentos, observo seus bigodes amarelados como também são amareladas as pontas dos dedos. Olho seus pés, aqueles dedinhos redondinhos sempre nos chinelos. Pés pequenos e impressionantes dedos redondinhos.
De volta à realidade deparo-me com o desafio de aprender a dobradura de um laço do amor. Algo trabalhoso para uma criança de sete ou oito anos... No entanto, é um desafio. A paciência, o amor, a perseverança desse homem, em cada folha “desperdiçada” imprime em meu cérebro todas as dobras, todos os ângulos, e o nó final perpetua-se em meu coração.
Sorrimos cúmplices com o resultado!
Um barulho do lado direito me faz girar. Uma cadeira de assento de palha é arrastada e um grande homem acomoda entre as pernas um balde cheio de laranjas. Suas pernas são magras e compridas como também são compridos seus cabelos brancos. Seus olhos são castanho-esverdeados, como os meus.
Traz consigo um pequeno canivete suíço e também me convida a sentar ao seu lado para descascar laranjas.  Entrega-me uma pequena faca de cabo de madeira. Algo perigoso para uma criança de seis ou sete anos...  Posso sentir o cheiro do creme Trim de modelar os cabelos, que ele usa todas as manhãs.
Pacientemente começa a demonstrar o ofício, alertando para não machucar a fruta. A cada tentativa degustamos o sabor do nosso trabalho - e rimos - e temos a escorrer pelos cantos da boca o doce sabor do momento.
Dado por satisfeito no primeiro tentame propõe novo desafio: descascar sem nenhuma “ferida”, para que num único furo superior todo o suco seja sorvido. Ensina-me a segurar a faca e fazer o furinho, repetidas vezes. Nem o sumo impregnado em minhas mãozinhas representa incômodo.
Bebemos cúmplices nosso resultado!
Volto novamente meu olhar para a esquerda e meu avô continua lá sorrindo para mim. Um homem de nome imponente – Porcino de Souza Barros  – mas que para nós – e todos os outros também - sempre foi o vovô Cininho ou “Seu” Cininho. Sua figura franzina, dada a pouco trabalho físico, e sua sensibilidade no trato com as pessoas nunca fizeram dele o Sr. Porcino.
Tomo-o pela mão e me aproximo do meu outro avô, também de nome imponente – Wilson Cretton – que foi batizado Vilson por sua mãe, e por um erro de registro virou Wilson, mas sempre foi – para nós e para os outros – o vovô Vilção ou “Seu” Vilção.

Duas figuras tão distintas! Dois amores tão semelhantes! Como não ser feliz na vida quando se tem no mesmo caminho um Cininho e um Vilção?