sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

(Breve) Memorial Edvar Alves de Moura

 Memorial Edvar Alves de Moura – 3ª edição/2020

O grande poeta e acadêmico Ferreira Gullar asseverou que “A arte existe porque a vida não basta”. Ao buscarmos a biografia de Edvar Alves de Moura, compreendemos perfeitamente a síntese poética! E permitindo fazer  uma intertextualidade com Manoel de Barros não hesitamos em afirmar que uma alma tão criativa não poderia ficar confinada em uma vida “que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde etc etc etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.”

Com certeza, o filho de Manoel Alves de Moura e Maria Magdalena Souto Moura, nascido em 30 de junho de 1943 foi esse “Outro” na história de Santo Antônio de Pádua, deixando-nos um legado imorredouro através do Teatro Municipal Geraldo Tavares André, esse espaço que nos acolhe nesta Cerimônia. Sua luta junto às autoridades competentes para que o prédio da antiga Estação Ferroviária fosse doado à Prefeitura, a remodelação e adaptação para as atividades teatrais é o fato mais marcante em sua vida, ele nos confidencia. E nós, reconhecemos e agradecemos por essa luta!

O professor de Letras, formado pela Universidade Federal Fluminense, Campus Niterói, iniciou sua carreira no magistério em 1982. Guarda especial lembrança pela sua passagem no CIEP de Itaguaí, onde atuou como coordenador da Biblioteca, Língua Portuguesa e Estudos Sociais.

Sua formação básica ocorreu nos espaços escolares do Colégio Estadual Almirante Barão de Teffé,  Colégio Cenecista Caribé da Rocha e Colégio de Pádua, onde concluiu o curso Técnico em Contabilidade. Embora os cifrões sejam importantes na vida de qualquer pessoa, nosso homenageado não seguiu carreira na Contabilidade, pois a arte sempre falou mais alto em sua vida. Em 1980, ele estreava no município de Mangaratiba, RJ, com a peça A Bruxinha que era boa, de Maria Clara Machado; um marco em sua trajetória artística, seguida de outras duas peças infantis: Chapeuzinho Vermelho e Maroquinhas Fru Fru. “Fiquei muito surpreso com o sucesso da minha primeira peça infantil, em Mangaratiba”, ele nos relata. A boa receptividade fez com que sua veia artística aflorasse e nos anos seguintes a atividade teatral foi intensa. Em 1993 foi convidado pelo então prefeito Luís Fernando Padilha Leite para realizar, no galpão do Parque de Exposição Municipal a peça “A mente capta”, abarcando um público considerável. No ano seguinte, 1994, consegue apoio para alugar um espaço na antiga máquina de beneficiamento de arroz, situada na Rua Dr. Ferreira da Luz, estreando neste espaço a peça “O Auto da Compadecida” , uma condensação do texto de Ariano Suassuna; além de fazer a remontagem da peça “A mente capta”. À frente do Grupo de Teatro Intuição viveu momentos memoráveis, como a montagem da peça “Morte e Vida Severina”, em Araruama, RJ, a convite da SATED – RJ; a oportunidade de ter sido recebido pela teatróloga Maria Clara Machado, no icônico Teatro Tablado, quando foi assistir à peça “O diamante do Grão Mogol” e, finalmente, ter participado do curso “Teatro do Oprimido”, conduzido pelo famoso teatrólogo Augusto Boal, na cidade do Rio de Janeiro. Pedimos licença aos ouvintes, mas não poderíamos deixar de registrar, neste Memorial, sua intensa atividade teatral em Santo Antônio de Pádua, à frente do Grupo Intuição:

1987 – A Gata Borralheira

1988 – Maroquinhas Fru-fru

1989 – A Bruxinha que era Boa

1991 – Os Cigarras e os Formigas

1993/1994 – A Mente Capta

1994 – Chapeuzinho Vermelho

1995 – Auto da Compadecida

1997 – Suburbano Coração; O Macaco e a Velha; A Onça de Asas

1998 – A volta do camaleão alface; Essa mulher é minha; Auto da Compadecida (remake)

1999 – A roupa mágica; O casamento da galinha cor-de-rosa; A dama de Copas e o Rei de Cuba

2000 – Pluft, o Fantasminha; O poleiro das margaridas

2001 – O rapto das cebolinhas

O final dos anos 80 e toda a década de 90 foram intensos! Que privilégio daquela geração ter em sua formação essa riqueza cultural! Obrigada, Edvar, por esse legado para Santo Antônio de Pádua! Que ele inspire novas iniciativas, do setor público, do setor privado, das instituições educacionais e culturais desse município. Em tempos tão sombrios, reviver nesta breve homenagem seus dias dourados, traz-nos um refrigério... uma luz... uma nostalgia de tempos mais felizes. Em sua música favorita “Let it be”, há um refrão que diz:

E quando a noite está nublada

Há ainda uma luz que brilha em mim

Brilha até amanhã, deixa estar

 

Eu acordo ao som da música

Mãe Maria vem para mim

Não haverá tristeza, deixe estar

 

Let it be, let it be,

Let it be, let it be,

There will be an answer, let it be

 

Com muita honra o Conselho Municipal de Educação confere-lhe a Medalha de Mérito Educacional Profª Maria Thereza Caldas Vellasco, n° 08, edição 2020, com eterna gratidão!


(Escrito por Alessandra Barros Cretton, a partir de informações fornecidas pelo próprio homenageado).


Memorial Ana Elvira Utrini Vieira Constâncio (por Wellyngton Teixeira Gouvêa)

Memorial Ana Elvira Utrini Vieira Constâncio – 4ª Edição/2021

Nossa homenageada é filha de Marta Utrini Vieira e Maurício Neves Vieira. Nascida em Miracema, aos 17 dias do mês dezembro de 1966 é casada com José Hamilton Constâncio e mãe de Lara Vieira Constâncio, Laís Vieira Constâncio e Luís Guilherme Vieira Constâncio.

O ano de seu nascimento foi o prenúncio do que ela representaria para sua família e para toda a comunidade de Miracema, de Santo Antônio de Pádua (e porque não para o Brasil?): 1966! O ano da cultura, dos festivais, da premiação de melhor filme para “A noviça rebelde”, e podemos perceber sua rebeldia através de suas produções, suas interlocuções, sua arte, na sua transformação em Charles Chaplin – o Carlitos, ou quando pega o violão e começa a dedilhar canções da MPB.

Estudou nas escolas estaduais Prudente de Morais e Deodato Linhares. Optou pela formação de professores e mais tarde pela Pedagogia e pelo Serviço Social – e não poderia ser diferente – sua vida toda está ligada ao fazer social, à busca e ao desenvolvimento de projetos sociais. Conseguiu unir o chão da sala, onde alfabetizou por mais de 25 anos, à cultura, sua grande vocação. Quando criança construía seus próprios brinquedos e suas próprias brincadeiras. E construindo, sonhava ....

Eis aqui seu currículo:

Como Coordenadora de Programas Educacionais e  Culturais da Secretaria Municipal de Educação do município de Santo Antônio de Pádua /RJ, desenvolveu projetos itinerantes como:

CIRANDA CULTURAL (destinado à valorização dos cantos e personagens  de cultura popular para a Educação Infantil);

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL (destinado a valorização dos patrimônios material e imaterial para o Ensino Fundamental I e II);

ESTAÇÃO MUSICAL, com oferta de educação musical no contra-turno escolar para alunos e professores.

Atuou como coordenadora municipal do Programa Nacional de Alfabetização  na Idade Certa – PNAIC, programa destinado a formação de professores alfabetizadores, no município de Miracema.  

Graduada em Pedagogia, com especializações em Orientação, Inspeção e Supervisão Escolar, Educação Infantil e Psicopedagogia e graduada em Serviço Social, atuou em instituições como Consórcio CECIERJ- Polo Bom Jesus/RJ, Universidade Cândido Mendes - Polo Itaocara/RJ.

Foi integrante das equipes técnicas das Instituições APAE (Miracema/RJ) e Pestalozzi (Itaocara/RJ).

Na rede privada de ensino atuou durante 28 anos na rede conhecida como Campanha Nacional das Escolas da Comunidade - CNEC/RJ em Miracema.

É integrante da equipe técnica da Associação Grupo Sócio-Cultural “Cara da Rua” - Miracema/RJ, atualmente como diretora operacional. Nesta mesma instituição vem desenvolvendo um trabalho sócio-educativo-cultural com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social  nos bairros periféricos do município, resgatando-os pelo potencial artístico que apresentam.

Desde 2019, através da especialização em Cultura, Patrimônio e Educação: diálogos no território/IFF-Pádua/RJ, vem desenvolvendo um trabalho pautado na integração Educação/Cultura, como forma de dignidade e transformação de vidas pela arte, pela cultura.          

No ano de 2020, como integrante do comitê gestor da Lei 14.017 de emergência cultural/ LEI ALDIR BLANC, no âmbito municipal, além de mediar o acesso de agentes culturais ao auxílio emergencial cultural,  favoreceu o acesso desses mesmos agentes a uma identidade cultural mediante a efetivação do cadastramento cultural municipal, como também oportunizou o acesso a 80% do valor destinado ao município pela Plataforma Mais Brasil. Artistas dos segmentos culturais como: artes visuais, artes cênicas, literatura, música, dança, cultura popular, matrizes africanas, foram beneficiados. Trabalhou na busca, dentro do edital, de recursos para contemplar novas ideias culturais como forma de inovação e valorização de potenciais artísticos desconhecidos, além de valorizar dez espaços produtores de cultura que tiveram suas portas fechadas por conta do tempo pandêmico.                       

Todo o material produzido foi disponibilizado em plataformas digitais, totalizando quarenta e sete vídeos diversificados que foram entregues à Secretaria Municipal de Educação como forma de apoio pedagógico e valorização/salvaguarda da cultura presente no âmbito municipal.                                                                                         

Atualmente como participante da Secretaria Municipal de Cultura, além de buscar ações de favorecimento ao tombamento dos patrimônios culturais municipais, dentre eles o Tombamento da Ponte Raul Veiga pelo seu centenário em 2022, apoiou a efetivação da segunda etapa da Lei Aldir Blanc, dos recursos remanescentes da Plataforma Mais Brasil onde 67 (sessenta e sete) agentes culturais foram comtemplados, material em processo de produção virtual, que também será disponibilizado pelas redes sociais. Atua como vice-presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Santo Antônio de Pádua/RJ e é parte integrante da CAPS - comissão de avaliadores de projetos da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro, dentro da Lei de Incentivo à Cultura.

A trajetória da sua vida profissional pauta-se na dignidade das vidas que foram oportunizadas pela cultura. Potenciais artísticos, de trajetórias reais e significativas, expressas também nas oralidades de seus griôs (guardiães de memória), grandes mestres, muitas vezes desconhecidas e que somente um trabalho comprometido pela busca destes (mediante diagnósticos e efetivações de cadastros e ações efetivas de fortalecimento, resguardo, proteção e economia criativa, contribuirão com a proteção e a salvaguarda dos bens culturais do nosso povo).

Agentes Culturais são desbravadores, navegam pelos desafios e pela diversidade.

É autora do livro “Fios da Vida”, obra memorista, que retrata o dia a dia das tecelãs da antiga fiação e tecelagem São Martino. Recebeu a condecoração de “Cidadã Paduana” pela Câmara Municipal de Vereadores e foi ainda condecorada pela Comissão de Cultura da Alerj com o diploma Heloneida Studart 2020/2021.

Essa breve narrativa está longe de contemplar com fidelidade seu longo currículo. Sua vida é o resultado da abnegação, do compromisso, do respeito e amor à cultura e à educação; e é por esse motivo que o Conselho Municipal de Educação outorga-lhe a Medalha de Mérito Educacional Maria Tereza Caldas Velasco, n°12, Edição 2021, com gratidão e louvor!

 




Memorial Ezilani Santos da Rocha (por Marcilio Parreira dos Reis)

 

Memorial Ezilani Santos da Rocha – 3ª edição/2020

Ezilani Santos da Rocha é filha de Ezir Martins da Rocha e Cenira Custódio dos Santos. Moradora do distrito de Monte Alegre, nasceu em 16 de agosto de 1974, na cidade de Santo Antônio de Pádua – RJ. É casada com Elias Ferreira Silva e tem um único filho: Elian Rocha Ferreira.

De sua infância guarda como melhores lembranças  fazer comidinha em um fogãozinho à lenha de verdade e brincar de pique-bandeirinha com seus primos e vizinhos. Também subia bem no alto da mangueira para deliciar-se com as mangas maduras, colhidas diretamente no pé. Depois, corria ao balanço de cordas feitas pelo avô Ernando e ficava muito feliz quando iam de charrete à Monte Alegre, para comprar algo de que precisavam.

Sua primeira escola foi em uma sala que funcionava na casa da própria professora. Entrou aos 7 anos para cursar a 1ª série, embora já sabendo ler, pois sua mãe lhe ensinava em casa. Ao concluir a 3ª série, sua mãe achou melhor matriculá-la na Escola Estadual Temístocles de Almeida, em Monte Alegre. A escola ficava a uma distância de 4 km de sua casa e ela ia a pé todos os dias. Era uma grande escola e havia uma turma para cada série. Quando chegou, foi direcionada para a turma da 3ª série B, destinada aos alunos da zona rural e/ ou alunos repetentes. Terminou o ano com média C, e como sua mãe achou o seu aprendizado regular, assinou um documento para que repetisse o ano letivo, mesmo tendo sido aprovada. Porém, iria fazer a 3ª série A, numa turma mais “forte”, como se falava à época. Nessa escola,  prosseguiu os estudos até a 8ª série, onde se formou no Ensino Fundamental. Atualmente essa escola se chama Colégio Estadual Temístocles de Almeida, sendo destinada apenas aos alunos do Ensino Médio. Em 1989,  matriculou-se no C. M. Dr. Lemant Decnop no Curso de Formação de Professores, onde se formou em 1991.  No ano seguinte, como a escola da zona rural onde morava e, por coincidência, a mesma em que iniciou os estudos, estava precisando de uma professora, conseguiu um contrato pela Prefeitura e começou a trabalhar com as turmas multisseriadas de 3ª e 4ª séries.

No ano de 2001 participou do Curso de capacitação para os professores alfabetizadores, o PROFA. Com essa oportunidade, pode observar na prática o que aprendia na formação continuada e ver como o aprendizado da escrita e da leitura é prazeroso e significativo. Tudo o que estudava, realizava com os alunos da Classe de Alfabetização e, paralelamente, com os demais, pois era turma multisseriada, inclusive, com crianças da Educação Infantil, na época, 3º período, e 1ª e 2ª séries do Ensino Fundamental. Nesse mesmo ano, foi aprovada no vestibular para o ISE – FAETEC, no Curso Normal Superior ou Docência dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Sua conclusão ocorreu em 2005. Em 2008, concluiu sua Pós-Graduação em Psicopedagogia. Ainda no ano de 2003, solicitou uma transferência para o C. M. Dr. Lemant Decnop, por motivo de mudança de residência. Atua na Turma de 1º ano nesta escola até o presente momento.

Com relação às suas práticas pedagógicas realizadas, destacam-se as seguintes:

De 2004 a 2018  desenvolveu inúmeros projetos, pois era notório o sucesso na aprendizagem de todos os alunos. Podemos destacar: “Pensar, Arte de Viver”,  “Semeando Virtudes”,  “Fazendo a minha parte”,  “No cirandar dos tempos”, “Geometria: nesse trem eu vou”! “O luxo do lixo” , “No mundo do Sítio”, “Embarque nesse Carrossel”, “No reino do 1º ano”, “Superamigos”, “Todos juntos somos fortes”, Grammy Lemant”, “1º ano de grandes ideias”.

 O teatro sempre fez parte de sua sala de aula e a peça que mais trouxe encantamento a todos foi “Os saltimbancos”, em que  o trabalho em equipe e o respeito às diferenças foram evidenciados.

Em 2018, lançou o seu primeiro livro infantil - “De repente Geometria  - Vol. I” -  ideia surgida no passado pela necessidade de material lúdico e significativo para se trabalhar no projeto desenvolvido em 2010.

Em 2019,  participou da Bienal Internacional do livro no Rio de Janeiro.

Em outubro de 2020  escreveu o artigo “O ensino lúdico da matemática” a convite da Revista Veredas Educacionais (Grupo Prospecta Estratégia Educacional), de Vitória - ES.

Em novembro do mesmo ano foi convidada para gravar uma conversa sobre o seu trabalho, na qual acabou sendo uma das “Palestrantes no TEC ENCONTRO 2020 (Virtual) da UFF - Pádua” com o tema “Experiências didáticas no 1º ano do Ensino Fundamental  - 20 recursos utilizados”.

Como segue atuante em sala de aula com os pequenos do 1° ano, muitos projetos e ações educacionais de evidência ainda ocorrerão em sua docência. E, temos a certeza que a rede municipal de Santo Antônio de Pádua, principalmente a destacada comunidade de Monte Alegre muito tem a ser beneficiada pelo seu trabalho, envolvido de amor, desafio, superação, vontade ativa. Obrigada, Ezilani, por inspirar outros professores na arte da alfabetização, na transposição dos obstáculos para a publicação e divulgação de livros paradidáticos, que muito contribuem na prática do professor. O Conselho Municipal de Educação confere-lhe a Medalha de Mérito Educacional Maria Thereza Caldas Vellasco como honra ao caminho trilhado e como penhora do muito que ainda vai realizar na educação municipal. Que esta Medalha lhe sirva de incentivo para a publicação de novos livros, mais artigos, palestras, que ficarão como legado à educação paduana. Parabéns!






 

(Adaptação de Marcilio Parreira dos Reis, a partir de Memorial e questionário fornecido pela própria homenageada).

Memorial Norma Corrêa Medeiros Mello (por ela mesma)

 

MEMORIAL – NORMA CORRÊA MEDEIROS MELLO

No dia 02 de agosto de 1955, conheci a luz do dia, da vida fora do útero quentinho de minha mãe.  Nasci na zona rural, em uma localidade denominada Campo Belo / Marangatu e por lá vivi os melhores e mais significativos anos de minha vida!

Sou filha de agricultor com muito orgulho. Meu pai, de quem sinto muita saudade, o sr. Iris Brasil Medeiros, era um homem de voz suave, doce mesmo e, assim, com seu jeito manso de falar, cativava a todos que com ele conviveram.

Para falar sobre minha mãe... hum, fico pensando, sobre o que dizer da pessoa que me deu a vida, que me carregou no ventre? Palavras faltam-me, mas digo que ela foi uma mãe extremamente carinhosa, amorosa, e de personalidade marcante. Dona Benedita Corrêa Medeiros (carinhosamente cognominada de Doquinha) foi meu maior exemplo; tinha um coração que não cabia no peito. A saudade caminha comigo, mas digo: saudade tem quem viveu esse amor ou de amor e tem boas lembranças para contar.

O mundo das letras chegou muito suave, pois veio através de minha mãe.  Apesar de ela não ter nenhuma graduação, não faltou boa vontade e ela me apresentou os números e as letras.  Me orgulho em dizer que minha mãe me ensinou a ler. Quem quer coisa melhor, do que aprender com a pessoa que tanto me amou e a quem eu sigo amando?

Na escola, meu primeiro contato foi aos 8 anos de idade. Cheguei cheia de curiosidade para descobrir o novo mundo. Estava maravilhada!

Cheguei já sendo avaliada para que pudessem me encaixar adequadamente, visto que, já cheguei lendo! Após a prova, fui apresentada aos colegas da antiga 2ª série e com eles segui por todo curso primário.

Assim foi minha entrada triunfal no Grupo Escolar Deputado Salim Simão, do qual trago comigo as amizades que fiz, o carinho pelos professores e muitas, muitas boas lembranças.

 Cursei o ensino secundário (curso ginasial) no Colégio Estadual Rui Guimarães de Almeida. Creio eu, que foi desde essa época que fiz minha escolha profissional – ser professora! Assistia às aulas extasiada, com o carinho, a dedicação e o conhecimento de tantos profissionais, que ainda hoje, permanecem vivos na minha lembrança de forma positiva e inspiradora.

Consciente do que desejava ser por toda a vida, fiz o Ensino Médio no Colégio Cenecista Caribé da Rocha (curso Normal) - formação de professores – concluindo o mesmo no ano de 1975. Parece que foi ontem!

Lembro-me do baile de formatura no Campestre Pádua Clube, a valsa na qual meu pai me conduziu suavemente!  A presença do paraninfo da turma, figura pública, o político, saudoso Sr. Frederico de Alvim Padilha. Tudo guardado na caixinha de memórias...felizes memórias!

E novas conquistas vieram, fui aprovada no vestibular no ano seguinte, para cursar LETRAS, na “Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Professora Nair Fortes Abu-Merhy” – Além Paraíba – Minas Gerais. Sentia que muitas mudanças viriam e vislumbrava novos horizontes... Aconteceu o inesperado!

Fui convidada para ocupar a cadeira da querida professora de Português, no Colégio Cenecista no qual estudei. Foi muita emoção e o peso da responsabilidade em substituir alguém com tanto saber e sabedoria, a saudosa prof ª Coralina Leite Vilela.

Por lá trabalhei longos anos, concluindo minha graduação em Letras no ano de 1979; sempre prestando meus serviços de professora em minha querida Pádua.

Os anos 80 deixaram muitas marcas em minha vida. Fiz meu primeiro concurso público. Aprovada e feliz, não consegui ocupar minha tão sonhada vaga. Dissabor esse, que fez com que eu alçasse novos voos. Fui para Angra dos Reis...encontrando abrigo na residência de minha irmã e sendo acolhida por estranhos que o tempo mostrou o quão amigos eram.

Chegando em Angra, saí logo à procura de trabalho. Fui sozinha. E, para surpresa de minha irmã retornei com emprego arrumado. Fui contratada pela Prefeitura Municipal e, confesso, que foi um passo bem dado. Encontrei muitas paduanas que àquela época iam para Angra pela facilidade em encontrar trabalho e pelo bom salário.

Pouco tempo depois, fui convidada para supervisionar a área de Língua Portuguesa e foi um aprendizado muito proveitoso.

Ainda me lembro do barulho das águas do mar indo para a Ilha Grande / Vila do Abraão para visitar a escola municipal da localidade.

Saudades ficaram!

Nessa mesma década, vindo visitar a família, reencontrei o paduano José Israel Mello Duarte. Foi pouco tempo de namoro e noivado. Casamos e fomos morar em Duque de Caxias, onde ele trabalhava. E eu, continuei trabalhando em Angra. Indo e voltando toda semana.

Com o nascimento do maior presente que Deus poderia nos ofertar, a filha Natália, resolvemos retornar para criá-la mais próximo da família. Filha esta, que hoje é médica atuante em nossa cidade.

Como disse Cora Coralina: Desistir... eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que o cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”

Retornamos para nossa querida Pádua. Prestei novo concurso público e, mais uma vez aprovada, consegui ocupar meu cargo.

Iniciei minha trajetória no Colégio Estadual Frei Thomás (Itaocara). Em pouco tempo fui transferida para o Colégio Estadual Manoel Miguel Souto (Campelo). Quanto acolhimento! E, posteriormente, vim para o Colégio Estadual Rui Guimarães de Almeida. Desses colégios, guardo no coração passagens e pessoas inesquecíveis. Realizei o sonho de minha vida!  Feliz e com a missão cumprida me aposentei em 2011, assim me despedindo do Colégio Estadual Rui Guimarães de Almeida.

Desde 2004, ministro aulas de Língua Portuguesa no colégio CEPRA (CENTRO EDUCACIONAL PROFESSOR RUI AZEVEDO) e me orgulho de participar do mesmo desde sua criação.

É extremamente gratificante entrar na sala de aula e um pequeno perguntar:

__ Sabe de quem sou filho? Sou filho do seu ex-aluno ..... e ele me disse que a senhora é muito brava, muito carinhosa e muito competente. Isso não tem preço!

No CEPRA, em 2017, junto ao parceiro Prof. Leandro Rabelo, criamos o POEPRA (Festival de Poesias do CEPRA). É um evento de alto nível, já fazendo parte do calendário escolar. Uma verdadeira descoberta de talentos.

Reencontrar meus ex-alunos e vê-los comprometidos com o trabalho, realizados, muito me orgulha, porque direta ou indiretamente, fiz parte dessa história.

 Este ano me despeço das salas de aula, grata a Deus, a família CEPRA, agora para seguir a vida, ofertar lugar ao outro, como um dia foi-me ofertado e, com a tranquilidade de quem deixa naqueles que por mim passaram bons exemplos, conhecimentos e ensinamentos para a vida, levo na  lembrança a imagem de cada um e de todos, de momentos compartilhados, aprendizado, troca de experiências e, principalmente a certeza de que cada atitude tomada por mim foi baseada no respeito e amor ao próximo.

Lembrando, um tanto saudosa, um antigo diretor que dizia ”não gosto das regras, mas admiro a Norma.”

            Depois de ouvirmos essa narrativa em 1ª pessoa, que nos remete a uma linda viagem no tempo, queremos dizer, Profª Norma, que seu legado para Santo Antônio de Pádua ultrapassa diversas gerações... Estar no chão da sala de aula por 45 anos é tarefa para nobres guerreiros. E que bom que o Universo conspirou para que pudéssemos laureá-la em seu último ano na docência! Parabéns! Obrigada! Receba a Medalha de Mérito Educacional Profª Thereza Caldas, n° 16, com a eterna gratidão da educação paduana.






Memorial Eleane Bittencourt Coelho (por ela mesma)

 Memorial Eleane Bittencourt Coelho – 3ª edição/2020

Eleane Bitencourt Coelho nasceu em Monte Alegre, 6º Distrito do nosso Município, filha do comerciário Bertoldo Rodrigues Coelho, cambuciense de nascimento e monte-alegrense de coração, e Eunice Bitencourt Rodrigues, monte-alegrense, do lar e posteriormente servidora federal dos Correios e Telégrafos.

Seu nome é derivado de uma das paixões de seu pai – a política. Era o nome da irmã do candidato à presidência da República, Eduardo Gomes, em 1945; uma eleição importante, depois de um grande período da Ditadura de Getúlio Vargas. Seu pai já tinha homenageado o político com o nascimento de seu primeiro filho, chamando-lhe Eduardo. Teve mais dois irmãos, Marilene e Luiz Carlos. 

Sua infância foi em Monte Alegre, num lar com muito amor e respeito, e tendo as ruas sem trânsito como palco das brincadeiras, pois ali só existia um fordeco, e o ônibus que passava em dois horários, manhã e tarde. As brincadeiras eram de pique-bandeira, pique-esconde, roda, conversas nas calçadas e também nas épocas de moagens de cana, deliciava-se com as canas disponibilizadas, a pedido, pelos condutores dos carros de boi que as transportavam para o Engenho do Seu Alberto.

Mas a infância não era só brincadeiras! Não havia pré-escola e ao completar 7 anos foi matriculada no Grupo Escolar “Temístocles de Almeida”, onde também estudaram dois de seus irmãos, Eduardo e Marilene. Traz consigo boas recordações daquela época: sua alfabetizadora, uma monte-alegrense recém-formada - Maria Jane Mello Simão, e sua melhor amiga Maria das Dores Bastos.

Seus pais se preocupavam com a cultura e tinha na leitura um grande incentivo: “gibis”, a revista “Nosso Amiguinho”, suplementos infantis dos jornais assinados, que devorava. Na adolescência, as revistas de telenovelas: “Capricho”, “Sétimo Céu”, bem como o acesso às revistas “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos”.

Cinema, também paixão dos pais, foi incentivado, liberando-a a assistir desde cedo os “sem-censura” como as chanchadas brasileiras com os atores Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, Mazzaropi. Lembranças dessa época a levou às lágrimas, quando, há pouco tempo, assistiu ao filme “Cinema Paradiso”. Era o cinema de Monte Alegre!

Mídia falada era o Rádio, sendo as estações mais ouvidas a “Nacional” e “Tupi”. A família reunida ouvia o noticiário do “Repórter Esso”, e os de  entretenimentos: “Seu Criado, Obrigado”, “Hora do Pato”, “Primo Pobre e Primo Rico”, “Jerônimo, o Herói do Sertão” e as novelas com as lindas vozes de Paulo Gracindo, Mário Lago, Isis de Oliveira e outros.

Já adolescente, tendo terminado o curso primário há um ano, sua mãe, como servidora dos Correios e Telégrafos, foi transferida para Pádua. Nova residência à rua 10 de Novembro, hoje, Massaud Simão, novos amigos e sobretudo nova vida, pois, logo foi matriculada no Colégio de Pádua para um curso de pré-admissão ao Ginásio. 

No Colégio de Pádua no período de 1961 a 1967, cursou o ginásio e também a Escola Normal de Pádua, onde fez muitos novos amigos, alguns com contatos até hoje.

Nesse período, foi introduzida a pensar política, com eleições anuais dos membros do Grêmio Lítero Esportivo “São José”, bem como da Rainha dos Estudantes. E, paralelamente, no âmbito municipal, dos membros da Federação dos Estudantes de Pádua.

No campo acadêmico, além da Escola Normal, cursou Pedagogia na área do Magistério das disciplinas pedagógicas de 2º grau na Faculdade de Filosofia de Itaperuna. Na Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Motta, Rio de Janeiro, cursou Pedagogia na área de Supervisão Escolar e Orientação Educacional. Posteriormente, pós-graduação, lato-sensu, em Concentração Didática na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Nair Fortes Abu-Merhi, em Além Paraíba.  

No campo profissional, aprovada em concurso público, foi: Professora Primária na Escola Reunida “Boa Vista”, no Goiabal, Município de Cambuci, na Escola Reunida “Santa Maria” em São José de Ubá, na época Distrito de Cambuci e Grupo Escolar ‘Temístocles de Almeida no Distrito de Monte Alegre no Município de Santo Antônio de Pádua.

No Segundo Grau atuou no Colégio Estadual “Ruy Guimarães de Almeida” na formação de Professores, sendo por diversas vezes Paraninfa das Formandas.

Em concurso de títulos foi alçada ao cargo de Inspetor Escolar no Município de Santo Antônio de Pádua visitando Escolas Rurais e urbanas, bem como participando de várias comissões de recolhimento de arquivos e comissões para criação de Escolas Particulares.

Com a criação da Coordenadoria Regional do Noroeste Fluminense foi Assessora da Coordenadora, Professora Penha Velasco. E, Coordenadora do Projeto Alunos Residentes dos CIEPs de 13 Municípios.

Foi criado por essa gestão na Coordenadoria, o Centro de Estudos Supletivos de Pádua, tendo sido nomeada como sua primeira Diretora, incumbida de implantar o projeto. Sem sede, como acontece até hoje, funcionávamos no CIEP “Ginásio Anaíde Panaro Caldas”. O CES teve uma grande importância para os concursandos de carreiras de 2º grau que não o tinham concluído. Quando o viu bem montado e estruturado, deixou a Direção e passou a atuar como Docente na cadeira de Filosofia no mesmo estabelecimento.

Paralelamente à sua atuação no serviço público, foi Professora no Colégio de Pádua e Caribé da Rocha; Diretora do Ensino Fundamental do Centro Educacional Professor Rui Azevedo; Membro do Conselho Municipal de Educação por 06 anos, tendo ajudado na elaboração do Plano Municipal de Educação no ano de 2015.

Participou de mais de 30 Fóruns de Educação e Cultura do Estado do Rio, entre eles o do Programa da Reforma Educativa para a América Latina.  

Foram 42 anos dedicados à Educação, vindo a se aposentar após ter-se submetido à mastectomia, tratamento quimioterápico e radioativo. Hoje curada!

Sempre esteve envolvida com a cultura e vida social da Cidade. Foi Diretora Social do Campestre Pádua Clube e do Clube Social de Pádua.

É membro efetivo da Academia Paduana de Letras, Artes e Ciências – APLAC – onde ocupa a Cadeira nº 45 que tem como Patrono Caribé da Rocha. Tendo presidido a mesma no período de 11 de janeiro a 28 de setembro de 2018 com o falecimento de sua Presidente, Maria Thereza Caldas Velasco.

Ela juntamente com Mariinha Almeida e Evaldo Xavier e inspirados nos Festivais da Canção que “bombavam” no Rio de Janeiro e eram transmitidos pela mídia televisa, criaram o “Festival da Canção Popular   de Pádua – FECAP. O primeiro foi em 1975 seguidos de muitos outros. Eram realizados no Campestre Pádua Clube por 3 dias de muitas festas e com a participação de músicos paduanos, cidades adjacentes e outros Estados.

No campo cívico, no Tribunal de Justiça/RJ foi jurada de vários Júris Populares. E no Tribunal Regional Eleitoral foi mesária, atuando por diversas vezes como Presidente de Mesa e também escrutinadora de várias eleições.         

 No campo pessoal, permaneceu solteira, porém, sem solidão, pois além dos seus irmãos e sobrinhos, tem “um milhão de amigos” que a enchem de alegria e carinho. Mas como a vida não é só alegria, teve suas grandes perdas: sua mãe em 1968, seu irmão, Eduardo, em 1974, seu pai em 1987 e mais recentemente seu cunhado, Luiz Felipe Haddad, em 2020.

Hoje aposentada, dedica-se à viagens, leitura, filmes e seriados televisivos. 

Uma vida tão rica... Legado para diversas gerações... Muitos aqui presentes nesta Cerimônia foram seus alunos. Parabéns, Eleane! Você não poderia deixar de ser homenageada com a ilustre Medalha Thereza Caldas. Pádua lhe deve enorme gratidão!




 

(Memorial fornecido pela própria homenageada, com finalização de Alessandra Barros Cretton).

 

Memorial Célia Maria Lira Jannuzzi (por ela mesma)

 

Diariamente nossas lembranças vão se acumulando e sendo reinterpretadas em nossa memória. Narrar essas recordações é trazer para o presente um passado muitas vezes esquecido. Revisitar essas lembranças, dando sentido ao que está sendo recordado, é uma ação que nos deixa suscetíveis a sensações de pesar, de alegria, de tristeza, de arrebatamento.  

            Assim, começo a exteriorizar essas lembranças sob a forma de um memorial em que os fatos apresentados neste momento estão dentro da perspectiva da professora que me tornei, tendo consciência que foram esses fatos que me deram existência pessoal e profissional.

            Sou filha de Enivaldo Lira e Idenir da Silva Lira. Pessoas simples, com pouca instrução, mas que reconheciam o valor da educação escolar como fator de transformação da vida de uma pessoa. Nascida no final dos anos de 1950, na cidade do Rio de Janeiro, no seio de uma família pobre, frequentei escolas públicas do Jardim de Infância ao Científico, atualmente equivalente ao Ensino Médio. Não me recordo o nome do Jardim de Infância, mas lembro-me do Grupo Escolar Padre Manuel da Nóbrega, onde fiz o primário e abriu para mim as portas do mundo do conhecimento. No final da quarta série, fiz exame de admissão para fazer o ginásio em uma escola que era destinada apenas para moças, o Colégio Técnico Industrial Aurelino Leal. Essa escola possibilitou-me reconhecer que o mundo das mulheres era mais do que aprender prendas domésticas, era aprender também a cultivar amizades, que algumas perduram até os dias de hoje. Ao final da quarta série ginasial, fiz novamente exame de admissão para o Liceu Nilo Peçanha, onde fiz o Científico, uma vez que minha intenção era fazer Medicina. Aquele espaço escolar oportunizou descobrir que as meninas também poderiam aprender Ciências. Mas, para minha surpresa, por intermédio da minha professora de Biologia, professora Marilena Varejão Guersola, descobri que meu interesse pela Ciências não se limitava ao corpo humano. Assim, ao sair daquela escola, fiz o vestibular para Ciências Físicas e Biológicas, área do conhecimento relativamente nova para o meado dos anos de 1970. Tenho orgulho de ser fruto dessas escolas públicas, às quais muito contribuíram com a minha formação pessoal e profissional.

Com algumas dificuldades, consegui ingressar no curso de Ciências Físicas e Biológicas, minha primeira graduação, na Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE), onde obtive meu título de Bacharelado e Licenciatura plena, no ano de 1979. Naquela época, não acalentava nenhuma ideia ligada à docência, pois a figura do professor já havia perdido o seu glamour. Era apenas uma estudante que, por influência de alguns professores, se encantou com a possibilidade de vir a desenvolver pesquisa na área de ciências da natureza. A formação, prioritariamente conteudista, colaborou com essa intenção, conduzindo‑me para um estágio no Departamento de Conservação Ambiental (DECAM), na antiga FEEMA (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), atual INEA (Instituto Estadual do Ambiente), sob a orientação do Professor Pedro Carauta. Foram quatro anos de experiência de grande importância para minha formação profissional. 

Ao concluir o curso de Ciências Biológicas permaneci no programa de pesquisa da instituição por mais dois anos como bolsista do CNPq. Porém, ao término dessa bolsa de aperfeiçoamento, constatei que não havia grandes oportunidades de me estabelecer dentro da área de pesquisa. Assim, tendo avaliado que a formação recebida até então não me oferecera subsídio suficiente para o exercício do magistério, decidi‑me por uma nova formação.

Aqui, permitam-me abrir um parêntese para abordar a contribuição da minha experiência no Movimento Escoteiro que, na minha visão, fortaleceu a minha opção pelo magistério. Entrei para o Grupo de Escoteiros Martim Afonso aos 17 anos como auxiliar de chefe de lobinhos e, posteriormente, assumi a função de Chefe (Akelá). Lobinhos eram como os meninos que se encontravam na faixa etária de 7 a 11 anos eram denominados, em referência a história de Mowgli, o menino lobo, encontrado no Livro da Selva, de Rudyard Kipling, o qual Baden-Powell se inspirou para o desenvolvimento das atividades desse ramo do escotismo. Através da vivência neste processo de educação não formal que, gradativamente, o meu interesse pelo campo educacional também foi despertando. A educação pela ação é um componente importante dentro do movimento escoteiro. Contudo, igualmente, naquele espaço sentia que minha ação necessitava de um corpo teórico que me ajudasse a compreendê‑la e aprimorá‑la a fim de colaborar, conscientemente, com o desenvolvimento das crianças que estavam sob minha responsabilidade.

Assim, buscando respostas para algumas questões que surgiram da minha atuação enquanto chefe de lobinhos, buscando acesso ao mercado de trabalho e inspirada por alguns professores que passaram em minha vida de estudante, foi que em 1981, após a segunda aprovação no vestibular unificado da Fundação CESGRANRIO, ingressei novamente em um curso de graduação, o Curso de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Por algum tempo tentei conciliar Movimento Escoteiro, o estágio na área de Fitogeografia na FEEMA a as atividades no Curso de Pedagogia. Entretanto, logo percebi que eu precisava concentrar esforços no que era mais impulsionador da minha recente e consciente opção profissional. A partir dessa reflexão fui despedindo-me do Movimento Escoteiro, após sete anos como chefe de lobinhos, e logo depois das atividades na FEEMA. Dessa forma, passei a dedicar‑me integralmente ao novo caminho que despontava.

Durante a formação no curso de Pedagogia, além das aulas,  exerci a função de monitora na disciplina Psicologia da Educação; participei de atividades de pesquisa e de extensão, como a experiência com Educação a Distância - o projeto LOGUS II/MEC, que qualificava professores leigos no Pará (PA), o que me possibilitou conhecer a Vila de Terra Santa (PA), onde exerci a função de monitora durante 30 dias na Unidade Avançada da UFF José Veríssimo, em Oriximiná/PA; e a experiência das Colônias de Férias realizadas pela PROEX no Colégio Agrícola da UFF Prof. Ildelfonso Bastos Borges, em Bom Jesus do Itabapoana. Essas vivências nortearam minha formação e ratificaram minha opção pelo magistério. Por volta desse período, além de ser aluna da Pedagogia na UFF, também estava inserida no mercado de trabalho como professora em uma creche.

O curso de Pedagogia reafirmou para mim a avaliação que fizera quando de minha formação em Ciências Biológicas, a de que somente a licenciatura em Biologia não fora suficiente para preparar-me para ser professora. Não só durante, como após a conclusão do curso de Pedagogia, fui sentindo-me em melhores condições para iniciar minha jornada no magistério. Isso, particularmente, devido à qualidade dos professores da Faculdade de Educação e à atenção deles em relação aos anseios dos alunos.

Ao término do Curso de Pedagogia, em julho de 1986, ingressei, de pronto, em um Curso de Especialização em Metodologia do Ensino Superior, da UFF. No mesmo ano, minha bagagem acadêmica construída até então, possibilitou a vinda para Santo Antônio de Pádua para lecionar as disciplinas de Psicologia da Educação e Fundamentos Biológicos da Educação, no Curso de Licenciatura em Matemática‑Interiorização.

Aqui, cabe um parêntese para falar um pouco sobre o Curso de Licenciatura em Matemática-Interiorização. Sua origem está vinculada ao desdobramento de uma ação de extensão, desenvolvida no interior do estado do Rio de Janeiro desde 1980, o projeto “Melhoria do Ensino de 1º grau – Matemática”, que tinha como meta melhorar a qualidade de ensino fundamental, através da capacitação de professores de Matemática em cursos de extensão de longa duração (60 horas/aula).[1] A ideia da criação de um pólo, deveu-se à iniciativa dos professores José Francisco Borges de Campos e Rosa Baldi, que propuseram aos órgãos competentes da UFF a interiorização de um curso de licenciatura plena em Matemática, que não somente preparasse profissionais para atuarem com o ensino da Matemática de 5ª à 8ª série e nas séries do Ensino Médio (antigo Segundo grau), como também fossem qualificados para atuarem nas séries iniciais do Ensino Fundamental, inclusive na alfabetização. Tratava-se de um currículo inovador para a época. Além disso, esse curso visava fornecer subsídios à fixação dos jovens na região através do acesso ao ensino superior público de qualidade, evitando assim que estes partissem de suas cidades para os grandes centros em busca de complementação para seus estudos.[2]  Tal ideia foi acolhida, pelo poder público local do município de Santo Antônio de Pádua, juntamente com a direção do Colégio de Pádua, que, na ocasião, ofereceu a infraestrutura necessária para a implementação dessa licenciatura.

A formação desse professor de matemática tinha como referência o currículo da licenciatura em Matemática, da UFF em Niterói, e as disciplinas pedagógicas do curso Normal que atenderiam a formação para as séries iniciais. Era um curso que possuía uma carga horária pesada de Matemática, com Lógica Matemática, Topologia, Análise Matemática, Cálculo Numérico etc. Havia um grupo de professores da UFF, pertencentes ao Instituto de Matemática e à Faculdade de Educação e um grupo de professores contratados. Eu era uma das contratadas, posteriormente efetivada. Originalmente esse curso foi pensado para ser itinerante; ou seja, formada a primeira turma ele seria transferido para outra localidade. No entanto, havia demanda pela formação, pois não existia outra graduação em universidade nas proximidades. Assim, o curso foi permanecendo em Santo Antônio de Pádua. A cada turma que formávamos crescia a necessidade de rever a qualidade da formação oferecida.

Ao entrar para o mestrado em Educação, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 1990, propus realizar uma avaliação dessa formação com a colaboração dos ex‑alunos, iniciando o tema da minha dissertação: "Avaliação de Curso de Graduação através de seus ex‑alunos". Ao concluir o mestrado em Educação e apresentar minha dissertação em 1995, havia adquirido maior conhecimento sobre este Curso de Graduação em Matemática e seus principais problemas. Com certeza, esse conhecimento contribuiu para melhorar a minha atuação profissional, tanto no curso de graduação, quanto nos Cursos de Especialização em Matemática para Professores do Ensino Fundamental e Médio e de Especialização para professores de Ciências.

A estruturação do curso de Matemática, dentro das configurações da Universidade, iniciou-se com a criação do Departamento de Educação Matemática em 1996, o que viabilizou a realização dos primeiros concursos para estruturação de um corpo docente efetivo exclusivamente para o curso de Matemática de Pádua. Participei, com aprovação, do segundo concurso realizado pelo departamento.

Na minha vida profissional além de lecionar, coordenar projetos, orientar alunos na graduação e na pós-graduação, também ocupei o cargo de coordenadora de curso. Este cargo atravessou minha formação profissional em três momentos distintos, dois no curso de Matemática e um nas Ciências Naturais. Foram doze anos de experiências que ampliaram meu conhecimento acerca da estrutura da UFF, que possibilitaram o estreitamento de relações e parcerias com a SMEC-Pádua (Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Pádua) e com as escolas no município, que fortaleceram o meu desejo de ser professora. Fui construindo essa formação de ser professora no bojo dessas atividades. Sou professora, com muito orgulho!

Não poderia deixar de mencionar que a receptividade do município e às ações desenvolvidas pela UFF tem sido o diferencial da sua permanência nessa localidade. Essa parceria consolidou a proposta de criação da Unidade de Formação de Professores, que hoje abarca vários cursos de graduação, e atualmente é denominada de Instituto do Noroeste Fluminense de Educação Superior.

Da implementação da Licenciatura em Matemática-Interiorização, em 1985, à criação do Instituto do Noroeste Fluminense de Educação Superior, em 2009, a UFF de Santa Antônio de Pádua passou por muitas transformações. Foram anos de luta por estruturação de um projeto de formação de professores que contou com a participação efetiva do poder público local e dos professores da rede, muitos sendo alunos egressos da UFF. Nesse sentido, sinto-me privilegiada por fazer parte dessa história. É ímpar o sentimento que me toca ao pensar a respeito.

Nesse processo de construção da minha identidade de educadora, sem dúvida alguma, o Curso de Licenciatura em Matemática-Interiorização e este Município são os expoentes que nutriram essa formação. Foi aqui que eu me tornei professora. Foi na convivência com meus colegas e, principalmente, com meus alunos que me tornei professora. Foi na acolhida dessa cidade por um projeto de formação de professores que eu tive a oportunidade de expandir meus limites vocacionais. Somos fruto de nossas escolhas! Eu escolhi, em vários momentos, permanecer em Pádua. Aqui tenho amigos, comadres e compadres, afilhados de casamento e afilhados de batismo, filhos e netos do coração. Aqui eu tenho o sobrenome UFF, na sede da UFF, em Niterói, eu tenho o sobrenome Pádua. Recebi o título de Cidadania Paduana em 22 de julho de 2004. Dessa forma, também sou cidadã Paduana, com muito orgulho!

Participei da formação de professores por trinta e cinco anos, não só neste município, mas, principalmente aqui. Por isso, sou grata! Grata à Universidade Federal Fluminense, que me permitiu ser agraciada com essa homenagem, e ao município de Santo Antônio de Pádua, porque foi aqui que aprendi a ser professora. Aprendi a ser professora no exercício da profissão. Hoje, ainda me sinto aprendiz de professora. Sou grata aos meus alunos por estarem junto nesse caminho, sou grata aos colegas de trabalho por estarem junto nesse caminho, sou grata a UFF por ter-me incluído nesse caminho, sou grata à comunidade paduana por ter incluído a UFF nessa caminhada.

Nesse momento, não poderia deixar de me solidarizar com os professores que estão retornando às atividades presenciais. Foram tempos difíceis os anos de 2020 e 2021, mas não desistimos da labuta diária, seja remota ou presencial. Ser professor em um país que pouco valoriza esse profissional requer coragem e determinação. Somos muito importantes na transformação da sociedade. Ser professor requer manter vivo o desejo pelo processo de aprender, requer se reinventar a cada aula, requer olhar o planejamento como uma oportunidade de mudança, pois o conhecimento é dinâmico, aberto, fluido.

Por fim, não poderia deixar de mencionar a imensa gratidão que sinto por receber essa Medalha de Mérito Educacional. Penso em muitas pessoas que deram grandes contribuições na área da educação ao município, mas fico muito feliz por Pádua, através do Conselho Municipal de Educação, acreditar que eu seja merecedora dessa homenagem. É emocionante! Tenho a convicção que essa linda homenagem, deve ser estendida a todos os envolvidos na contínua construção da Universidade Federal Fluminense em Santo Antônio de Pádua. Somos fortalecidos, estimulados e agraciados coletivamente pelas experiências oferecidas no espaço de formação/trabalho. Assim, entendo que essa é a maneira delicada da comunidade paduana homenagear a UFF por seus serviços prestados a esta localidade.  São trinta e seis anos de convivência, institucional e pessoal, estabelecida por meio da colaboração mútua UFF-Pádua.  Então, recebo essa Medalha ao Mérito Educacional em nome de todos da UFF, pois foi também por meio das vivências nesta instituição que me construí como profissional e pessoa.  

Desde que eu recebi a notícia, tenho refletido sobre os caminhos que me conduziram a esse momento, tão significativo. O produto dessa reflexão encontra-se nessas memórias, agora expressas em texto. Teria muito mais a dizer, contudo, exteriorizei o que considerei importante na minha caminhada para ser professora/educadora, que partiu do incentivo recebido dos meus pais para estudar, passando pelos professores que despertaram o meu interesse por aprender até minha inserção na UFF como professora em Santo Antônio de Pádua. Portanto, agradeço esse momento de reflexão! Foram trinta e cinco anos de formação nesse contexto UFF-Pádua. Passou muito rápido! Grata!


 

Nós que te agradecemos, Profª Célia, pelo seu legado para Santo Antônio de Pádua!

“Eu escolhi, em vários momentos, permanecer em Pádua” você nos relata neste Memorial. Que privilégio para a educação paduana essa escolha!

Hoje, queremos deixar registrado, nos anais deste Conselho, que a  Medalha n°13 de Mérito Educacional Profª Thereza Caldas segue em viagem com aquela que doou seu coração e sua caminhada, ao longo de 35 anos, para o solo paduano e circunvizinhos. Nossa terra foi fecundada pelas inúmeras lições semeadas na Universidade, mas, sobretudo, pela sua doçura - que  lhe constitui marca peculiar. Parabéns, Profª Célia! E, mais uma vez, o nosso reconhecimento e  profunda gratidão!





[1] Cf. UFF. Instituto de Matemática. Histórico. Disponível em http://www.ime.uff.br/index.php/ instituto/historia. Acesso em: 10 jul. 2014

 

[2] Cf. UFF. Instituto de Matemática. Histórico. Disponível em http://www.ime.uff.br/index.php/ instituto/historia. Acesso em: 10 jul. 2014