sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
(Breve) Memorial Edvar Alves de Moura
Memorial Edvar Alves de Moura – 3ª edição/2020
O
grande poeta e acadêmico Ferreira Gullar asseverou que “A arte existe porque
a vida não basta”. Ao buscarmos a biografia de Edvar Alves de Moura,
compreendemos perfeitamente a síntese poética! E permitindo fazer uma intertextualidade com Manoel de Barros não
hesitamos em afirmar que uma alma tão criativa não poderia ficar confinada em
uma vida “que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra
pão às 6 horas da tarde etc etc etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.”
Com
certeza, o filho de Manoel Alves de Moura e Maria Magdalena Souto Moura,
nascido em 30 de junho de 1943 foi esse “Outro” na história de Santo Antônio de
Pádua, deixando-nos um legado imorredouro através do Teatro Municipal Geraldo
Tavares André, esse espaço que nos acolhe nesta Cerimônia. Sua luta junto às
autoridades competentes para que o prédio da antiga Estação Ferroviária fosse
doado à Prefeitura, a remodelação e adaptação para as atividades teatrais é o
fato mais marcante em sua vida, ele nos confidencia. E nós, reconhecemos e
agradecemos por essa luta!
O
professor de Letras, formado pela Universidade Federal Fluminense, Campus
Niterói, iniciou sua carreira no magistério em 1982. Guarda especial lembrança
pela sua passagem no CIEP de Itaguaí, onde atuou como coordenador da
Biblioteca, Língua Portuguesa e Estudos Sociais.
Sua
formação básica ocorreu nos espaços escolares do Colégio Estadual Almirante
Barão de Teffé, Colégio Cenecista Caribé
da Rocha e Colégio de Pádua, onde concluiu o curso Técnico em Contabilidade.
Embora os cifrões sejam importantes na vida de qualquer pessoa, nosso homenageado
não seguiu carreira na Contabilidade, pois a arte sempre falou mais alto em sua
vida. Em 1980, ele estreava no município de Mangaratiba, RJ, com a peça A
Bruxinha que era boa, de Maria Clara Machado; um marco em sua trajetória
artística, seguida de outras duas peças infantis: Chapeuzinho Vermelho e
Maroquinhas Fru Fru. “Fiquei muito surpreso com o sucesso da minha primeira
peça infantil, em Mangaratiba”, ele nos relata. A boa receptividade fez com
que sua veia artística aflorasse e nos anos seguintes a atividade teatral foi
intensa. Em 1993 foi convidado pelo então prefeito Luís Fernando Padilha Leite
para realizar, no galpão do Parque de Exposição Municipal a peça “A mente
capta”, abarcando um público considerável. No ano seguinte, 1994, consegue
apoio para alugar um espaço na antiga máquina de beneficiamento de arroz,
situada na Rua Dr. Ferreira da Luz, estreando neste espaço a peça “O Auto da
Compadecida” , uma condensação do texto de Ariano Suassuna; além de fazer a
remontagem da peça “A mente capta”. À frente do Grupo de Teatro Intuição viveu
momentos memoráveis, como a montagem da peça “Morte e Vida Severina”, em
Araruama, RJ, a convite da SATED – RJ; a oportunidade de ter sido recebido pela
teatróloga Maria Clara Machado, no icônico Teatro Tablado, quando foi assistir
à peça “O diamante do Grão Mogol” e, finalmente, ter participado do curso
“Teatro do Oprimido”, conduzido pelo famoso teatrólogo Augusto Boal, na cidade
do Rio de Janeiro. Pedimos licença aos ouvintes, mas não poderíamos deixar de
registrar, neste Memorial, sua intensa atividade teatral em Santo Antônio de
Pádua, à frente do Grupo Intuição:
1987
– A Gata Borralheira
1988
– Maroquinhas Fru-fru
1989
– A Bruxinha que era Boa
1991
– Os Cigarras e os Formigas
1993/1994
– A Mente Capta
1994
– Chapeuzinho Vermelho
1995
– Auto da Compadecida
1997
– Suburbano Coração; O Macaco e a Velha; A Onça de Asas
1998
– A volta do camaleão alface; Essa mulher é minha; Auto da Compadecida (remake)
1999
– A roupa mágica; O casamento da galinha cor-de-rosa; A dama de Copas e o Rei
de Cuba
2000
– Pluft, o Fantasminha; O poleiro das margaridas
2001
– O rapto das cebolinhas
O
final dos anos 80 e toda a década de 90 foram intensos! Que privilégio daquela
geração ter em sua formação essa riqueza cultural! Obrigada, Edvar, por esse
legado para Santo Antônio de Pádua! Que ele inspire novas iniciativas, do setor
público, do setor privado, das instituições educacionais e culturais desse
município. Em tempos tão sombrios, reviver nesta breve homenagem seus dias
dourados, traz-nos um refrigério... uma luz... uma nostalgia de tempos mais
felizes. Em sua música favorita “Let it be”, há um refrão que diz:
E quando a noite está
nublada
Há ainda uma luz que
brilha em mim
Brilha até amanhã, deixa
estar
Eu acordo ao som da música
Mãe Maria vem para mim
Não haverá tristeza, deixe
estar
Let it be, let it be,
Let it be, let it be,
There will be an answer, let it be
Com
muita honra o Conselho Municipal de Educação confere-lhe a Medalha de Mérito
Educacional Profª Maria Thereza Caldas Vellasco, n° 08, edição 2020, com eterna
gratidão!
(Escrito
por Alessandra Barros Cretton, a partir de informações fornecidas pelo próprio
homenageado).
Memorial Ana Elvira Utrini Vieira Constâncio (por Wellyngton Teixeira Gouvêa)
Memorial Ana Elvira Utrini Vieira Constâncio – 4ª Edição/2021
Nossa
homenageada é filha de Marta Utrini Vieira e Maurício Neves Vieira. Nascida em
Miracema, aos 17 dias do mês dezembro de 1966 é casada com José Hamilton
Constâncio e mãe de Lara Vieira Constâncio, Laís Vieira Constâncio e Luís
Guilherme Vieira Constâncio.
O
ano de seu nascimento foi o prenúncio do que ela representaria para sua família
e para toda a comunidade de Miracema, de Santo Antônio de Pádua (e porque não
para o Brasil?): 1966! O ano da cultura, dos festivais, da premiação de melhor
filme para “A noviça rebelde”, e podemos perceber sua rebeldia através de suas
produções, suas interlocuções, sua arte, na sua transformação em Charles
Chaplin – o Carlitos, ou quando pega o violão e começa a dedilhar canções da
MPB.
Estudou
nas escolas estaduais Prudente de Morais e Deodato Linhares. Optou pela
formação de professores e mais tarde pela Pedagogia e pelo Serviço Social – e
não poderia ser diferente – sua vida toda está ligada ao fazer social, à busca
e ao desenvolvimento de projetos sociais. Conseguiu unir o chão da sala, onde
alfabetizou por mais de 25 anos, à cultura, sua grande vocação. Quando criança
construía seus próprios brinquedos e suas próprias brincadeiras. E construindo,
sonhava ....
Eis
aqui seu currículo:
Como
Coordenadora de Programas Educacionais e Culturais da Secretaria
Municipal de Educação do município de Santo Antônio de Pádua /RJ, desenvolveu
projetos itinerantes como:
CIRANDA
CULTURAL (destinado à valorização dos cantos e personagens de
cultura popular para a Educação Infantil);
EDUCAÇÃO
PATRIMONIAL (destinado a valorização dos patrimônios material e imaterial para
o Ensino Fundamental I e II);
ESTAÇÃO
MUSICAL, com oferta de educação musical no contra-turno escolar para alunos e
professores.
Atuou
como coordenadora municipal do Programa Nacional de Alfabetização na
Idade Certa – PNAIC, programa destinado a formação de professores
alfabetizadores, no município de Miracema.
Graduada
em Pedagogia, com especializações em Orientação, Inspeção e Supervisão Escolar,
Educação Infantil e Psicopedagogia e graduada em Serviço Social, atuou em
instituições como Consórcio CECIERJ- Polo Bom Jesus/RJ, Universidade Cândido
Mendes - Polo Itaocara/RJ.
Foi
integrante das equipes técnicas das Instituições APAE (Miracema/RJ) e
Pestalozzi (Itaocara/RJ).
Na
rede privada de ensino atuou durante 28 anos na rede conhecida como Campanha
Nacional das Escolas da Comunidade - CNEC/RJ em Miracema.
É
integrante da equipe técnica da Associação Grupo Sócio-Cultural “Cara da Rua” -
Miracema/RJ, atualmente como diretora operacional. Nesta mesma instituição vem
desenvolvendo um trabalho sócio-educativo-cultural com crianças e adolescentes
em situação de vulnerabilidade social nos bairros periféricos do
município, resgatando-os pelo potencial artístico que apresentam.
Desde
2019, através da especialização em Cultura, Patrimônio e Educação: diálogos no
território/IFF-Pádua/RJ, vem desenvolvendo um trabalho pautado na integração
Educação/Cultura, como forma de dignidade e transformação de vidas pela arte, pela
cultura.
No
ano de 2020, como integrante do comitê gestor da Lei 14.017 de emergência
cultural/ LEI ALDIR BLANC, no âmbito municipal, além de mediar o acesso de
agentes culturais ao auxílio emergencial cultural, favoreceu
o acesso desses mesmos agentes a uma identidade cultural mediante
a efetivação do cadastramento cultural municipal, como também oportunizou o
acesso a 80% do valor destinado ao município pela Plataforma Mais Brasil.
Artistas dos segmentos culturais como: artes visuais, artes cênicas,
literatura, música, dança, cultura popular, matrizes africanas, foram
beneficiados. Trabalhou na busca, dentro do edital, de recursos para contemplar
novas ideias culturais como forma de inovação e valorização de potenciais
artísticos desconhecidos, além de valorizar dez espaços produtores de cultura
que tiveram suas portas fechadas por conta do tempo
pandêmico.
Todo
o material produzido foi disponibilizado em plataformas digitais, totalizando
quarenta e sete vídeos diversificados que foram entregues à Secretaria
Municipal de Educação como forma de apoio pedagógico e valorização/salvaguarda
da cultura presente no âmbito municipal.
Atualmente
como participante da Secretaria Municipal de Cultura, além de buscar ações de
favorecimento ao tombamento dos patrimônios culturais municipais, dentre eles o
Tombamento da Ponte Raul Veiga pelo seu centenário em 2022, apoiou a efetivação
da segunda etapa da Lei Aldir Blanc, dos recursos remanescentes da Plataforma
Mais Brasil onde 67 (sessenta e sete) agentes culturais foram
comtemplados, material em processo de produção virtual, que também será
disponibilizado pelas redes sociais. Atua como vice-presidente do Conselho
Municipal de Políticas Culturais de Santo Antônio de Pádua/RJ e é parte
integrante da CAPS - comissão de avaliadores de projetos da Secretaria Estadual
de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro, dentro da Lei de
Incentivo à Cultura.
A
trajetória da sua vida profissional pauta-se na dignidade das vidas que foram
oportunizadas pela cultura. Potenciais artísticos, de trajetórias reais e
significativas, expressas também nas oralidades de seus griôs (guardiães de
memória), grandes mestres, muitas vezes desconhecidas e que somente um trabalho
comprometido pela busca destes (mediante diagnósticos e efetivações de
cadastros e ações efetivas de fortalecimento, resguardo, proteção e economia
criativa, contribuirão com a proteção e a salvaguarda dos bens culturais do
nosso povo).
Agentes
Culturais são desbravadores, navegam pelos desafios e pela diversidade.
É
autora do livro “Fios da Vida”, obra memorista, que retrata o dia a dia das
tecelãs da antiga fiação e tecelagem São Martino. Recebeu a condecoração de
“Cidadã Paduana” pela Câmara Municipal de Vereadores e foi ainda condecorada
pela Comissão de Cultura da Alerj com o diploma Heloneida Studart 2020/2021.
Essa
breve narrativa está longe de contemplar com fidelidade seu longo currículo.
Sua vida é o resultado da abnegação, do compromisso, do respeito e amor à
cultura e à educação; e é por esse motivo que o Conselho Municipal de Educação
outorga-lhe a Medalha de Mérito Educacional Maria Tereza Caldas Velasco, n°12,
Edição 2021, com gratidão e louvor!
Memorial Ezilani Santos da Rocha (por Marcilio Parreira dos Reis)
Memorial Ezilani Santos
da Rocha – 3ª edição/2020
Ezilani
Santos da Rocha é filha de Ezir Martins da Rocha e Cenira Custódio dos Santos.
Moradora do distrito de Monte Alegre, nasceu em 16 de agosto de 1974, na cidade
de Santo Antônio de Pádua – RJ. É casada com Elias Ferreira Silva e tem um
único filho: Elian Rocha Ferreira.
De
sua infância guarda como melhores lembranças fazer comidinha em um fogãozinho à lenha de
verdade e brincar de pique-bandeirinha com seus primos e vizinhos. Também subia
bem no alto da mangueira para deliciar-se com as mangas maduras, colhidas
diretamente no pé. Depois, corria ao balanço de cordas feitas pelo avô Ernando
e ficava muito feliz quando iam de charrete à Monte Alegre, para comprar algo
de que precisavam.
Sua
primeira escola foi em uma sala que funcionava na casa da própria professora. Entrou
aos 7 anos para cursar a 1ª série, embora já sabendo ler, pois sua mãe lhe
ensinava em casa. Ao concluir a 3ª série, sua mãe achou melhor matriculá-la na
Escola Estadual Temístocles de Almeida, em Monte Alegre. A escola ficava a uma
distância de 4 km de sua casa e ela ia a pé todos os dias. Era uma grande
escola e havia uma turma para cada série. Quando chegou, foi direcionada para a
turma da 3ª série B, destinada aos alunos da zona rural e/ ou alunos
repetentes. Terminou o ano com média C, e como sua mãe achou o seu aprendizado
regular, assinou um documento para que repetisse o ano letivo, mesmo tendo sido
aprovada. Porém, iria fazer a 3ª série A, numa turma mais “forte”, como se
falava à época. Nessa escola, prosseguiu
os estudos até a 8ª série, onde se formou no Ensino Fundamental. Atualmente
essa escola se chama Colégio Estadual Temístocles de Almeida, sendo destinada
apenas aos alunos do Ensino Médio. Em 1989,
matriculou-se no C. M. Dr. Lemant Decnop no Curso de Formação de
Professores, onde se formou em 1991. No
ano seguinte, como a escola da zona rural onde morava e, por coincidência, a mesma
em que iniciou os estudos, estava precisando de uma professora, conseguiu um
contrato pela Prefeitura e começou a trabalhar com as turmas multisseriadas de
3ª e 4ª séries.
No
ano de 2001 participou do Curso de capacitação para os professores
alfabetizadores, o PROFA. Com essa oportunidade, pode observar na prática o que
aprendia na formação continuada e ver como o aprendizado da escrita e da
leitura é prazeroso e significativo. Tudo o que estudava, realizava com os
alunos da Classe de Alfabetização e, paralelamente, com os demais, pois era
turma multisseriada, inclusive, com crianças da Educação Infantil, na época, 3º
período, e 1ª e 2ª séries do Ensino Fundamental. Nesse mesmo ano, foi aprovada
no vestibular para o ISE – FAETEC, no Curso Normal Superior ou Docência dos
Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Sua conclusão ocorreu em 2005. Em 2008,
concluiu sua Pós-Graduação em Psicopedagogia. Ainda no ano de 2003, solicitou
uma transferência para o C. M. Dr. Lemant Decnop, por motivo de mudança de
residência. Atua na Turma de 1º ano nesta escola até o presente momento.
Com
relação às suas práticas pedagógicas realizadas, destacam-se as seguintes:
De
2004 a 2018 desenvolveu inúmeros
projetos, pois era notório o sucesso na aprendizagem de todos os alunos.
Podemos destacar: “Pensar, Arte de Viver”,
“Semeando Virtudes”, “Fazendo a
minha parte”, “No cirandar dos tempos”,
“Geometria: nesse trem eu vou”! “O luxo do lixo” , “No mundo do Sítio”,
“Embarque nesse Carrossel”, “No reino do 1º ano”, “Superamigos”, “Todos juntos
somos fortes”, Grammy Lemant”, “1º ano de grandes ideias”.
O teatro sempre fez parte de sua sala de aula
e a peça que mais trouxe encantamento a todos foi “Os saltimbancos”, em
que o trabalho em equipe e o respeito às
diferenças foram evidenciados.
Em
2018, lançou o seu primeiro livro infantil - “De repente Geometria - Vol. I” - ideia surgida no passado pela necessidade de
material lúdico e significativo para se trabalhar no projeto desenvolvido em
2010.
Em
2019, participou da Bienal Internacional
do livro no Rio de Janeiro.
Em
outubro de 2020 escreveu o artigo “O
ensino lúdico da matemática” a convite da Revista Veredas Educacionais (Grupo
Prospecta Estratégia Educacional), de Vitória - ES.
Em
novembro do mesmo ano foi convidada para gravar uma conversa sobre o seu
trabalho, na qual acabou sendo uma das “Palestrantes no TEC ENCONTRO 2020
(Virtual) da UFF - Pádua” com o tema “Experiências didáticas no 1º ano do
Ensino Fundamental - 20 recursos
utilizados”.
Como
segue atuante em sala de aula com os pequenos do 1° ano, muitos projetos e
ações educacionais de evidência ainda ocorrerão em sua docência. E, temos a
certeza que a rede municipal de Santo Antônio de Pádua, principalmente a destacada
comunidade de Monte Alegre muito tem a ser beneficiada pelo seu trabalho,
envolvido de amor, desafio, superação, vontade ativa. Obrigada, Ezilani, por
inspirar outros professores na arte da alfabetização, na transposição dos
obstáculos para a publicação e divulgação de livros paradidáticos, que muito
contribuem na prática do professor. O Conselho Municipal de Educação
confere-lhe a Medalha de Mérito Educacional Maria Thereza Caldas Vellasco como
honra ao caminho trilhado e como penhora do muito que ainda vai realizar na
educação municipal. Que esta Medalha lhe sirva de incentivo para a publicação
de novos livros, mais artigos, palestras, que ficarão como legado à educação
paduana. Parabéns!
(Adaptação
de Marcilio Parreira dos Reis, a partir de Memorial e questionário fornecido
pela própria homenageada).
Memorial Norma Corrêa Medeiros Mello (por ela mesma)
MEMORIAL
– NORMA CORRÊA MEDEIROS MELLO
No dia 02 de agosto de 1955,
conheci a luz do dia, da vida fora do útero quentinho de minha mãe. Nasci na zona rural, em uma localidade
denominada Campo Belo / Marangatu e por lá vivi os melhores e mais
significativos anos de minha vida!
Sou filha de agricultor com muito
orgulho. Meu pai, de quem sinto muita saudade, o sr. Iris Brasil Medeiros, era
um homem de voz suave, doce mesmo e, assim, com seu jeito manso de falar,
cativava a todos que com ele conviveram.
Para falar sobre minha mãe... hum,
fico pensando, sobre o que dizer da pessoa que me deu a vida, que me carregou
no ventre? Palavras faltam-me, mas digo que ela foi uma mãe extremamente
carinhosa, amorosa, e de personalidade marcante. Dona Benedita Corrêa Medeiros
(carinhosamente cognominada de Doquinha) foi meu maior exemplo; tinha um
coração que não cabia no peito. A saudade caminha comigo, mas digo: saudade tem
quem viveu esse amor ou de amor e tem boas lembranças para contar.
O mundo das letras chegou muito suave,
pois veio através de minha mãe. Apesar
de ela não ter nenhuma graduação, não faltou boa vontade e ela me apresentou os
números e as letras. Me orgulho em dizer
que minha mãe me ensinou a ler. Quem quer coisa melhor, do que aprender com a
pessoa que tanto me amou e a quem eu sigo amando?
Na escola, meu primeiro contato foi
aos 8 anos de idade. Cheguei cheia de curiosidade para descobrir o novo mundo. Estava
maravilhada!
Cheguei já sendo avaliada para que
pudessem me encaixar adequadamente, visto que, já cheguei lendo! Após a prova,
fui apresentada aos colegas da antiga 2ª série e com eles segui por todo curso
primário.
Assim foi minha entrada triunfal no
Grupo Escolar Deputado Salim Simão, do qual trago comigo as amizades que fiz, o
carinho pelos professores e muitas, muitas boas lembranças.
Cursei o ensino
secundário (curso ginasial) no Colégio Estadual Rui Guimarães de Almeida. Creio
eu, que foi desde essa época que fiz minha escolha profissional – ser
professora! Assistia às aulas extasiada, com o carinho, a dedicação e o conhecimento
de tantos profissionais, que ainda hoje, permanecem vivos na minha lembrança de
forma positiva e inspiradora.
Consciente do que desejava ser por toda a vida,
fiz o Ensino Médio no Colégio Cenecista Caribé da Rocha (curso Normal) -
formação de professores – concluindo o mesmo no ano de 1975. Parece que foi
ontem!
Lembro-me do baile de formatura no
Campestre Pádua Clube, a valsa na qual meu pai me conduziu suavemente! A presença do paraninfo da turma, figura
pública, o político, saudoso Sr. Frederico de Alvim Padilha. Tudo guardado na
caixinha de memórias...felizes memórias!
E novas
conquistas vieram, fui aprovada no vestibular no ano seguinte, para cursar
LETRAS, na “Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Professora Nair Fortes
Abu-Merhy” – Além Paraíba – Minas Gerais. Sentia que muitas mudanças viriam e vislumbrava
novos horizontes... Aconteceu o inesperado!
Fui convidada para ocupar a cadeira da querida
professora de Português, no Colégio Cenecista no qual estudei. Foi muita emoção
e o peso da responsabilidade em substituir alguém com
tanto saber e sabedoria, a saudosa prof ª Coralina Leite Vilela.
Por lá trabalhei longos anos,
concluindo minha graduação em Letras no ano de 1979; sempre prestando meus serviços
de professora em minha querida Pádua.
Os anos 80 deixaram muitas marcas
em minha vida. Fiz meu primeiro concurso público. Aprovada e feliz, não
consegui ocupar minha tão sonhada vaga. Dissabor esse, que fez com que eu
alçasse novos voos. Fui para Angra dos Reis...encontrando abrigo na residência
de minha irmã e sendo acolhida por estranhos que o tempo mostrou o quão amigos
eram.
Chegando em Angra, saí logo à
procura de trabalho. Fui sozinha. E, para surpresa de minha irmã retornei com
emprego arrumado. Fui contratada pela Prefeitura Municipal e, confesso, que foi
um passo bem dado. Encontrei muitas paduanas que àquela época iam para Angra
pela facilidade em encontrar trabalho e pelo bom salário.
Pouco tempo depois, fui convidada
para supervisionar a área de Língua Portuguesa e foi um aprendizado muito
proveitoso.
Ainda me lembro do barulho das
águas do mar indo para a Ilha Grande / Vila do Abraão para visitar a escola
municipal da localidade.
Saudades ficaram!
Nessa mesma década, vindo visitar a família,
reencontrei o paduano José Israel Mello Duarte. Foi pouco tempo de namoro e
noivado. Casamos e fomos morar em Duque de Caxias, onde ele trabalhava. E eu,
continuei trabalhando em Angra. Indo e voltando toda semana.
Com o nascimento do maior presente que Deus poderia
nos ofertar, a filha Natália, resolvemos retornar para criá-la mais próximo da
família. Filha esta, que hoje é médica atuante em nossa cidade.
Como disse Cora Coralina: “Desistir... eu já
pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais
chão nos meus olhos do que o cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus
passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo
na minha cabeça.”
Retornamos para nossa querida Pádua. Prestei novo
concurso público e, mais uma vez aprovada, consegui ocupar meu cargo.
Iniciei minha trajetória no Colégio Estadual
Frei Thomás (Itaocara). Em pouco tempo fui transferida para o Colégio Estadual
Manoel Miguel Souto (Campelo). Quanto acolhimento! E, posteriormente, vim para
o Colégio Estadual Rui Guimarães de Almeida. Desses colégios, guardo no coração
passagens e pessoas inesquecíveis. Realizei o sonho de minha vida! Feliz e com a missão cumprida me aposentei em
2011, assim me despedindo do Colégio Estadual Rui Guimarães de Almeida.
Desde 2004, ministro aulas de Língua Portuguesa
no colégio CEPRA (CENTRO EDUCACIONAL PROFESSOR RUI AZEVEDO) e me orgulho de
participar do mesmo desde sua criação.
É extremamente gratificante entrar na sala de
aula e um pequeno perguntar:
__ Sabe de quem sou filho? Sou filho do seu
ex-aluno ..... e ele me disse que a senhora é muito brava, muito carinhosa e
muito competente. Isso não tem preço!
No CEPRA, em 2017, junto ao parceiro Prof.
Leandro Rabelo, criamos o POEPRA (Festival de Poesias do CEPRA). É um evento de
alto nível, já fazendo parte do calendário escolar. Uma verdadeira descoberta
de talentos.
Reencontrar meus ex-alunos e vê-los
comprometidos com o trabalho, realizados, muito me orgulha, porque direta ou
indiretamente, fiz parte dessa história.
Este ano
me despeço das salas de aula, grata a Deus, a família CEPRA, agora para seguir
a vida, ofertar lugar ao outro, como um dia foi-me ofertado e, com a tranquilidade
de quem deixa naqueles que por mim passaram bons exemplos, conhecimentos e
ensinamentos para a vida, levo na
lembrança a imagem de cada um e de todos, de momentos compartilhados,
aprendizado, troca de experiências e, principalmente a certeza de que cada
atitude tomada por mim foi baseada no respeito e amor ao próximo.
Lembrando, um tanto saudosa, um antigo diretor que dizia ”não gosto das regras, mas admiro a Norma.”
Depois de ouvirmos essa narrativa em
1ª pessoa, que nos remete a uma linda viagem no tempo, queremos dizer, Profª
Norma, que seu legado para Santo Antônio de Pádua ultrapassa diversas
gerações... Estar no chão da sala de aula por 45 anos é tarefa para nobres
guerreiros. E que bom que o Universo conspirou para que pudéssemos laureá-la em
seu último ano na docência! Parabéns! Obrigada! Receba a Medalha de Mérito Educacional
Profª Thereza Caldas, n° 16, com a eterna gratidão da educação paduana.
Memorial Eleane Bittencourt Coelho (por ela mesma)
Memorial Eleane Bittencourt Coelho – 3ª edição/2020
Eleane
Bitencourt Coelho nasceu em Monte Alegre, 6º Distrito do nosso Município, filha
do comerciário Bertoldo Rodrigues Coelho, cambuciense de nascimento e
monte-alegrense de coração, e Eunice Bitencourt Rodrigues, monte-alegrense, do
lar e posteriormente servidora federal dos Correios e Telégrafos.
Seu
nome é derivado de uma das paixões de seu pai – a política. Era o nome da irmã
do candidato à presidência da República, Eduardo Gomes, em 1945; uma eleição
importante, depois de um grande período da Ditadura de Getúlio Vargas. Seu pai
já tinha homenageado o político com o nascimento de seu primeiro filho, chamando-lhe
Eduardo. Teve mais dois irmãos, Marilene e Luiz Carlos.
Sua
infância foi em Monte Alegre, num lar com muito amor e respeito, e tendo as
ruas sem trânsito como palco das brincadeiras, pois ali só existia um fordeco,
e o ônibus que passava em dois horários, manhã e tarde. As brincadeiras eram de
pique-bandeira, pique-esconde, roda, conversas nas calçadas e também nas épocas
de moagens de cana, deliciava-se com as canas disponibilizadas, a pedido, pelos
condutores dos carros de boi que as transportavam para o Engenho do Seu
Alberto.
Mas
a infância não era só brincadeiras! Não havia pré-escola e ao completar 7 anos
foi matriculada no Grupo Escolar “Temístocles de Almeida”, onde também
estudaram dois de seus irmãos, Eduardo e Marilene. Traz consigo boas
recordações daquela época: sua alfabetizadora, uma monte-alegrense
recém-formada - Maria Jane Mello Simão, e sua melhor amiga Maria das Dores
Bastos.
Seus
pais se preocupavam com a cultura e tinha na leitura um grande incentivo:
“gibis”, a revista “Nosso Amiguinho”, suplementos infantis dos jornais
assinados, que devorava. Na adolescência, as revistas de telenovelas:
“Capricho”, “Sétimo Céu”, bem como o acesso às revistas “O Cruzeiro”, “Fatos e
Fotos”.
Cinema,
também paixão dos pais, foi incentivado, liberando-a a assistir desde cedo os
“sem-censura” como as chanchadas brasileiras com os atores Oscarito, Grande
Otelo, Zé Trindade, Mazzaropi. Lembranças dessa época a levou às lágrimas,
quando, há pouco tempo, assistiu ao filme “Cinema Paradiso”. Era o cinema de
Monte Alegre!
Mídia
falada era o Rádio, sendo as estações mais ouvidas a “Nacional” e “Tupi”. A
família reunida ouvia o noticiário do “Repórter Esso”, e os de entretenimentos: “Seu Criado, Obrigado”,
“Hora do Pato”, “Primo Pobre e Primo Rico”, “Jerônimo, o Herói do Sertão” e as
novelas com as lindas vozes de Paulo Gracindo, Mário Lago, Isis de Oliveira e
outros.
Já
adolescente, tendo terminado o curso primário há um ano, sua mãe, como
servidora dos Correios e Telégrafos, foi transferida para Pádua. Nova
residência à rua 10 de Novembro, hoje, Massaud Simão, novos amigos e sobretudo
nova vida, pois, logo foi matriculada no Colégio de Pádua para um curso de
pré-admissão ao Ginásio.
No
Colégio de Pádua no período de 1961 a 1967, cursou o ginásio e também a Escola
Normal de Pádua, onde fez muitos novos amigos, alguns com contatos até hoje.
Nesse
período, foi introduzida a pensar política, com eleições anuais dos membros do
Grêmio Lítero Esportivo “São José”, bem como da Rainha dos Estudantes. E,
paralelamente, no âmbito municipal, dos membros da Federação dos Estudantes de
Pádua.
No
campo acadêmico, além da Escola Normal, cursou Pedagogia na área do Magistério
das disciplinas pedagógicas de 2º grau na Faculdade de Filosofia de Itaperuna.
Na Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Motta, Rio de Janeiro, cursou
Pedagogia na área de Supervisão Escolar e Orientação Educacional. Posteriormente,
pós-graduação, lato-sensu, em Concentração Didática na Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras Nair Fortes Abu-Merhi, em Além Paraíba.
No
campo profissional, aprovada em concurso público, foi: Professora Primária na
Escola Reunida “Boa Vista”, no Goiabal, Município de Cambuci, na Escola Reunida
“Santa Maria” em São José de Ubá, na época Distrito de Cambuci e Grupo Escolar
‘Temístocles de Almeida no Distrito de Monte Alegre no Município de Santo
Antônio de Pádua.
No
Segundo Grau atuou no Colégio Estadual “Ruy Guimarães de Almeida” na formação
de Professores, sendo por diversas vezes Paraninfa das Formandas.
Em
concurso de títulos foi alçada ao cargo de Inspetor Escolar no Município de
Santo Antônio de Pádua visitando Escolas Rurais e urbanas, bem como
participando de várias comissões de recolhimento de arquivos e comissões para
criação de Escolas Particulares.
Com
a criação da Coordenadoria Regional do Noroeste Fluminense foi Assessora da
Coordenadora, Professora Penha Velasco. E, Coordenadora do Projeto Alunos
Residentes dos CIEPs de 13 Municípios.
Foi
criado por essa gestão na Coordenadoria, o Centro de Estudos Supletivos de
Pádua, tendo sido nomeada como sua primeira Diretora, incumbida de implantar o
projeto. Sem sede, como acontece até hoje, funcionávamos no CIEP “Ginásio
Anaíde Panaro Caldas”. O CES teve uma grande importância para os concursandos
de carreiras de 2º grau que não o tinham concluído. Quando o viu bem montado e
estruturado, deixou a Direção e passou a atuar como Docente na cadeira de
Filosofia no mesmo estabelecimento.
Paralelamente
à sua atuação no serviço público, foi Professora no Colégio de Pádua e Caribé
da Rocha; Diretora do Ensino Fundamental do Centro Educacional Professor Rui
Azevedo; Membro do Conselho Municipal de Educação por 06 anos, tendo ajudado na
elaboração do Plano Municipal de Educação no ano de 2015.
Participou
de mais de 30 Fóruns de Educação e Cultura do Estado do Rio, entre eles o do
Programa da Reforma Educativa para a América Latina.
Foram
42 anos dedicados à Educação, vindo a se aposentar após ter-se submetido à
mastectomia, tratamento quimioterápico e radioativo. Hoje curada!
Sempre
esteve envolvida com a cultura e vida social da Cidade. Foi Diretora Social do
Campestre Pádua Clube e do Clube Social de Pádua.
É
membro efetivo da Academia Paduana de Letras, Artes e Ciências – APLAC – onde
ocupa a Cadeira nº 45 que tem como Patrono Caribé da Rocha. Tendo presidido a
mesma no período de 11 de janeiro a 28 de setembro de 2018 com o falecimento de
sua Presidente, Maria Thereza Caldas Velasco.
Ela
juntamente com Mariinha Almeida e Evaldo Xavier e inspirados nos Festivais da
Canção que “bombavam” no Rio de Janeiro e eram transmitidos pela mídia
televisa, criaram o “Festival da Canção Popular de Pádua – FECAP. O primeiro foi em 1975
seguidos de muitos outros. Eram realizados no Campestre Pádua Clube por 3 dias
de muitas festas e com a participação de músicos paduanos, cidades adjacentes e
outros Estados.
No
campo cívico, no Tribunal de Justiça/RJ foi jurada de vários Júris Populares. E
no Tribunal Regional Eleitoral foi mesária, atuando por diversas vezes como
Presidente de Mesa e também escrutinadora de várias eleições.
No campo pessoal, permaneceu solteira, porém,
sem solidão, pois além dos seus irmãos e sobrinhos, tem “um milhão de amigos”
que a enchem de alegria e carinho. Mas como a vida não é só alegria, teve suas
grandes perdas: sua mãe em 1968, seu irmão, Eduardo, em 1974, seu pai em 1987 e
mais recentemente seu cunhado, Luiz Felipe Haddad, em 2020.
Hoje
aposentada, dedica-se à viagens, leitura, filmes e seriados televisivos.
Uma
vida tão rica... Legado para diversas gerações... Muitos aqui presentes nesta
Cerimônia foram seus alunos. Parabéns, Eleane! Você não poderia deixar de ser
homenageada com a ilustre Medalha Thereza Caldas. Pádua lhe deve enorme
gratidão!
(Memorial
fornecido pela própria homenageada, com finalização de Alessandra Barros
Cretton).
Memorial Célia Maria Lira Jannuzzi (por ela mesma)
Diariamente nossas lembranças vão se acumulando e sendo reinterpretadas em nossa memória. Narrar essas recordações é trazer para o presente um passado muitas vezes esquecido. Revisitar essas lembranças, dando sentido ao que está sendo recordado, é uma ação que nos deixa suscetíveis a sensações de pesar, de alegria, de tristeza, de arrebatamento.
Assim, começo a exteriorizar essas
lembranças sob a forma de um memorial em que os fatos apresentados neste
momento estão dentro da perspectiva da professora que me tornei, tendo
consciência que foram esses fatos que me deram existência pessoal e
profissional.
Sou
filha de Enivaldo Lira e Idenir da Silva Lira. Pessoas simples, com pouca
instrução, mas que reconheciam o valor da educação escolar como fator de
transformação da vida de uma pessoa. Nascida no final dos anos de 1950, na cidade do Rio de Janeiro, no seio de uma família
pobre, frequentei escolas públicas do Jardim de Infância ao Científico, atualmente equivalente ao Ensino Médio. Não me
recordo o nome do Jardim de Infância, mas lembro-me do Grupo Escolar Padre
Manuel da Nóbrega, onde fiz o primário e abriu para mim as portas do mundo do
conhecimento. No final da quarta série, fiz exame de admissão para fazer o
ginásio em uma escola que era destinada apenas para moças, o Colégio Técnico
Industrial Aurelino Leal. Essa escola possibilitou-me reconhecer que o mundo
das mulheres era mais do que aprender prendas domésticas, era aprender também a
cultivar amizades, que algumas perduram até os dias de hoje. Ao final da quarta
série ginasial, fiz novamente exame de admissão para o Liceu Nilo Peçanha, onde
fiz o Científico, uma vez que minha intenção era fazer Medicina. Aquele espaço
escolar oportunizou descobrir que as meninas também poderiam aprender Ciências.
Mas, para minha surpresa, por intermédio da minha professora de Biologia,
professora Marilena Varejão Guersola, descobri que meu interesse pela Ciências
não se limitava ao corpo humano. Assim, ao sair daquela escola, fiz o vestibular
para Ciências Físicas e Biológicas, área do conhecimento relativamente nova para
o meado dos anos de 1970. Tenho orgulho de ser fruto dessas escolas públicas,
às quais muito contribuíram com a minha formação pessoal e profissional.
Com
algumas dificuldades, consegui ingressar no curso de Ciências Físicas e Biológicas,
minha primeira graduação, na Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE), onde
obtive meu título de Bacharelado e Licenciatura plena, no ano de 1979. Naquela
época, não
acalentava nenhuma ideia ligada à docência, pois a figura do professor já havia
perdido o seu glamour. Era apenas uma
estudante que, por influência de alguns professores, se encantou com a
possibilidade de vir a desenvolver pesquisa na área de ciências da natureza. A
formação, prioritariamente conteudista, colaborou com essa intenção, conduzindo‑me
para um estágio no Departamento de Conservação Ambiental (DECAM), na antiga FEEMA
(Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), atual INEA (Instituto Estadual
do Ambiente), sob a orientação do Professor Pedro Carauta. Foram quatro anos de
experiência de grande importância para minha formação profissional.
Ao concluir o curso de Ciências
Biológicas permaneci no programa de pesquisa da instituição por mais dois anos
como bolsista do CNPq. Porém, ao término dessa bolsa de aperfeiçoamento, constatei
que não havia grandes oportunidades de me estabelecer dentro da área de
pesquisa. Assim, tendo avaliado que a formação recebida até então não me
oferecera subsídio suficiente para o exercício do magistério, decidi‑me por uma
nova formação.
Aqui, permitam-me abrir um
parêntese para abordar a contribuição da minha experiência no Movimento
Escoteiro que, na minha visão, fortaleceu a minha opção pelo magistério. Entrei
para o Grupo de Escoteiros Martim Afonso aos 17 anos como auxiliar de chefe de
lobinhos e, posteriormente, assumi a função de Chefe (Akelá). Lobinhos eram
como os meninos que se encontravam na faixa etária de 7 a 11 anos eram
denominados, em referência a história de Mowgli, o menino lobo, encontrado no Livro
da Selva, de Rudyard Kipling, o qual Baden-Powell se inspirou para o
desenvolvimento das atividades desse ramo do escotismo. Através da vivência
neste processo de educação não formal que, gradativamente, o meu interesse pelo
campo educacional também foi despertando. A educação pela ação é um componente
importante dentro do movimento escoteiro. Contudo, igualmente, naquele espaço sentia
que minha ação necessitava de um corpo teórico que me ajudasse a compreendê‑la e
aprimorá‑la a fim de colaborar, conscientemente, com o desenvolvimento das
crianças que estavam sob minha responsabilidade.
Assim, buscando
respostas para algumas questões que surgiram da minha atuação enquanto chefe de
lobinhos, buscando acesso ao mercado de trabalho e inspirada por alguns professores
que passaram em minha vida de estudante, foi que
em 1981, após a segunda aprovação no vestibular unificado da Fundação
CESGRANRIO, ingressei novamente em um curso de graduação, o Curso de Pedagogia
da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Por algum tempo tentei
conciliar Movimento Escoteiro, o estágio na área de Fitogeografia na FEEMA a as
atividades no Curso de Pedagogia. Entretanto, logo percebi que eu precisava concentrar
esforços no que era mais impulsionador da minha recente e consciente opção
profissional. A partir dessa reflexão fui despedindo-me do Movimento Escoteiro,
após sete anos como chefe de lobinhos, e logo depois das atividades na FEEMA.
Dessa forma, passei a dedicar‑me integralmente ao novo caminho que despontava.
Durante a formação no curso de Pedagogia,
além das aulas, exerci a função de
monitora na disciplina Psicologia da Educação; participei de atividades de pesquisa
e de extensão, como a experiência com Educação a Distância - o projeto LOGUS
II/MEC, que qualificava professores leigos no Pará (PA), o que me possibilitou
conhecer a Vila de Terra Santa (PA), onde exerci a função de monitora durante
30 dias na Unidade Avançada da UFF José Veríssimo, em Oriximiná/PA; e a
experiência das Colônias de Férias realizadas pela PROEX no Colégio Agrícola da
UFF Prof. Ildelfonso Bastos Borges, em Bom Jesus do Itabapoana. Essas vivências
nortearam minha formação e ratificaram minha opção pelo magistério. Por volta
desse período, além de ser aluna da Pedagogia na UFF, também estava inserida no
mercado de trabalho como professora em uma creche.
O curso de Pedagogia
reafirmou para mim a avaliação que fizera quando de minha formação em Ciências
Biológicas, a de que somente a licenciatura em Biologia não fora suficiente
para preparar-me para ser professora. Não só durante, como após a conclusão do
curso de Pedagogia, fui sentindo-me em melhores condições para iniciar minha
jornada no magistério. Isso, particularmente, devido à qualidade dos
professores da Faculdade de Educação e à atenção deles em relação aos anseios
dos alunos.
Ao término do Curso de Pedagogia,
em julho de 1986, ingressei, de pronto, em um Curso de Especialização em
Metodologia do Ensino Superior, da UFF. No mesmo ano, minha bagagem acadêmica construída
até então, possibilitou a vinda para Santo Antônio de Pádua para lecionar as
disciplinas de Psicologia da Educação e Fundamentos Biológicos da Educação, no
Curso de Licenciatura em Matemática‑Interiorização.
Aqui, cabe um parêntese
para falar um pouco sobre o Curso de Licenciatura em Matemática-Interiorização.
Sua origem está vinculada ao desdobramento de uma ação de extensão, desenvolvida
no interior do estado do Rio de Janeiro desde 1980, o
projeto “Melhoria do Ensino de 1º grau – Matemática”, que tinha como meta
melhorar a qualidade de ensino fundamental, através da capacitação de professores de Matemática em
cursos de extensão de longa duração (60 horas/aula).[1] A ideia da criação de um pólo, deveu-se à iniciativa
dos professores José Francisco Borges de Campos e Rosa Baldi, que propuseram
aos órgãos competentes da UFF a interiorização de um curso de licenciatura
plena em Matemática, que não somente preparasse profissionais para atuarem com
o ensino da Matemática de 5ª à 8ª série e nas séries do Ensino Médio
(antigo Segundo grau), como também fossem
qualificados para atuarem nas séries iniciais do Ensino Fundamental,
inclusive na alfabetização. Tratava-se de um currículo inovador para a época. Além disso, esse curso visava
fornecer subsídios à fixação dos jovens na região através do acesso ao ensino
superior público de qualidade, evitando assim que estes partissem de suas
cidades para os grandes centros em busca de complementação para seus estudos.[2] Tal
ideia foi acolhida, pelo poder público local do município de
Santo Antônio de Pádua, juntamente com a direção do Colégio de Pádua, que, na
ocasião, ofereceu a infraestrutura necessária para a implementação dessa
licenciatura.
A formação desse
professor de matemática tinha como referência o currículo da licenciatura em Matemática,
da UFF em Niterói, e as disciplinas pedagógicas do curso Normal que atenderiam
a formação para as séries iniciais. Era um curso que possuía uma carga horária
pesada de Matemática, com Lógica Matemática, Topologia, Análise Matemática,
Cálculo Numérico etc. Havia um grupo de professores da UFF, pertencentes ao Instituto
de Matemática e à Faculdade de Educação e um grupo de professores contratados.
Eu era uma das contratadas, posteriormente efetivada. Originalmente esse curso
foi pensado para ser itinerante; ou seja, formada a primeira turma ele seria
transferido para outra localidade. No entanto, havia demanda pela formação,
pois não existia outra graduação em universidade nas proximidades. Assim, o
curso foi permanecendo em Santo Antônio de Pádua. A cada turma que formávamos
crescia a necessidade de rever a qualidade da formação oferecida.
Ao entrar para o
mestrado em Educação, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em
1990, propus realizar uma avaliação dessa formação com a colaboração dos ex‑alunos,
iniciando o tema da minha dissertação: "Avaliação de Curso de Graduação
através de seus ex‑alunos". Ao concluir o mestrado em Educação e
apresentar minha dissertação em 1995, havia adquirido maior conhecimento sobre
este Curso de Graduação em Matemática e seus principais problemas. Com certeza,
esse conhecimento contribuiu para melhorar a minha atuação profissional, tanto no
curso de graduação, quanto nos Cursos de Especialização em Matemática para Professores
do Ensino Fundamental e Médio e de Especialização para professores de Ciências.
A estruturação do curso
de Matemática, dentro das configurações da Universidade, iniciou-se com a
criação do Departamento de Educação Matemática em 1996, o que viabilizou a
realização dos primeiros concursos para estruturação de um corpo docente efetivo
exclusivamente para o curso de Matemática de Pádua. Participei, com aprovação,
do segundo concurso realizado pelo departamento.
Na minha vida
profissional além de lecionar, coordenar projetos, orientar alunos na graduação
e na pós-graduação, também ocupei o cargo de coordenadora de curso. Este cargo
atravessou minha formação profissional em três momentos distintos, dois no
curso de Matemática e um nas Ciências Naturais. Foram doze anos de experiências
que ampliaram meu conhecimento acerca da estrutura da UFF, que possibilitaram o
estreitamento de relações e parcerias com a SMEC-Pádua (Secretaria Municipal de
Educação e Cultura de Pádua) e com as escolas no município, que fortaleceram o
meu desejo de ser professora. Fui construindo essa formação de ser professora
no bojo dessas atividades. Sou professora, com muito orgulho!
Não poderia
deixar de mencionar que a receptividade do município
e às ações desenvolvidas
pela UFF tem sido o diferencial da sua permanência nessa localidade. Essa
parceria consolidou a proposta de criação da Unidade de Formação de
Professores, que hoje abarca vários cursos de
graduação, e atualmente é denominada de Instituto do Noroeste Fluminense
de Educação Superior.
Da implementação da
Licenciatura em Matemática-Interiorização, em 1985, à criação do Instituto do
Noroeste Fluminense de Educação Superior, em 2009, a UFF de Santa Antônio de Pádua passou por muitas transformações. Foram anos de
luta por estruturação de um projeto de formação de professores que contou com a
participação efetiva do poder público local e dos professores da rede, muitos
sendo alunos egressos da UFF. Nesse sentido, sinto-me privilegiada por fazer
parte dessa história. É ímpar o sentimento que me toca ao pensar a respeito.
Nesse processo de
construção da minha identidade de educadora, sem dúvida alguma, o Curso de
Licenciatura em Matemática-Interiorização e este Município são os expoentes que
nutriram essa formação. Foi aqui que eu me tornei professora. Foi na
convivência com meus colegas e, principalmente, com meus alunos que me tornei
professora. Foi na acolhida dessa cidade por um projeto de formação de professores
que eu tive a oportunidade de expandir meus limites vocacionais. Somos fruto de
nossas escolhas! Eu escolhi, em vários momentos, permanecer em Pádua. Aqui
tenho amigos, comadres e compadres, afilhados de casamento e afilhados de
batismo, filhos e netos do coração. Aqui eu tenho o sobrenome UFF, na sede da
UFF, em Niterói,
eu tenho o sobrenome Pádua. Recebi o título de Cidadania Paduana em 22 de julho
de 2004. Dessa forma, também sou cidadã Paduana, com muito orgulho!
Participei da formação
de professores por trinta e cinco anos, não só neste município, mas,
principalmente aqui. Por isso, sou grata! Grata à Universidade Federal
Fluminense, que me permitiu ser agraciada com essa homenagem, e ao município de
Santo Antônio de Pádua, porque foi aqui que aprendi a ser professora. Aprendi a
ser professora no exercício da profissão. Hoje, ainda me sinto aprendiz de
professora. Sou grata aos meus alunos por estarem junto nesse caminho, sou
grata aos colegas de trabalho por estarem junto nesse caminho, sou grata a UFF
por ter-me incluído nesse caminho, sou grata à comunidade paduana por ter incluído
a UFF nessa caminhada.
Nesse momento, não
poderia deixar de me solidarizar com os professores que estão retornando às
atividades presenciais. Foram tempos difíceis os anos de 2020 e 2021, mas não
desistimos da labuta diária, seja remota ou presencial. Ser professor em um
país que pouco valoriza esse profissional requer coragem e determinação. Somos muito
importantes na transformação da sociedade. Ser professor requer manter vivo o
desejo pelo processo de aprender, requer se reinventar a cada aula, requer
olhar o planejamento como uma oportunidade de mudança, pois o conhecimento é
dinâmico, aberto, fluido.
Por fim, não poderia
deixar de mencionar a imensa gratidão que sinto por receber essa Medalha de
Mérito Educacional. Penso em muitas pessoas que deram grandes contribuições na
área da educação ao município, mas fico muito feliz por Pádua, através do
Conselho Municipal de Educação, acreditar que eu seja merecedora dessa homenagem.
É emocionante! Tenho a convicção que essa linda homenagem, deve ser estendida a
todos os envolvidos na contínua construção da Universidade Federal Fluminense
em Santo Antônio de Pádua. Somos fortalecidos, estimulados e agraciados
coletivamente pelas experiências oferecidas no espaço de formação/trabalho.
Assim, entendo que essa é a maneira delicada da comunidade paduana homenagear a
UFF por seus serviços prestados a esta localidade. São trinta e seis
anos de convivência, institucional e pessoal, estabelecida por meio da
colaboração mútua UFF-Pádua. Então, recebo
essa Medalha ao Mérito Educacional em nome de todos da UFF, pois foi também por
meio das vivências nesta instituição que me construí como profissional e pessoa.
Desde que eu recebi a
notícia, tenho refletido sobre os caminhos que me conduziram a esse momento,
tão significativo. O produto dessa reflexão encontra-se nessas memórias, agora
expressas em texto. Teria muito mais a dizer, contudo, exteriorizei o que
considerei importante na minha caminhada para ser professora/educadora, que partiu
do incentivo recebido dos meus pais para estudar, passando pelos professores
que despertaram o meu interesse por aprender até minha inserção na UFF como
professora em Santo Antônio de Pádua. Portanto, agradeço esse momento de
reflexão! Foram trinta e cinco anos de formação nesse contexto UFF-Pádua. Passou
muito rápido! Grata!
Nós que te agradecemos,
Profª Célia, pelo seu legado para Santo Antônio de Pádua!
“Eu escolhi, em vários
momentos, permanecer em Pádua” você nos relata neste Memorial. Que privilégio
para a educação paduana essa escolha!
Hoje, queremos deixar
registrado, nos anais deste Conselho, que a Medalha n°13 de Mérito Educacional Profª
Thereza Caldas segue em viagem com aquela que doou seu coração e sua caminhada,
ao longo de 35 anos, para o solo paduano e circunvizinhos. Nossa terra foi
fecundada pelas inúmeras lições semeadas na Universidade, mas, sobretudo, pela
sua doçura - que lhe constitui marca
peculiar. Parabéns, Profª Célia! E, mais uma vez, o nosso reconhecimento e profunda gratidão!